terça-feira, dezembro 27, 2011

Governo angolano se empenha na organização e realização de eleições transparentes

Luanda – 26/12/2011 - O Presidente da República, José Eduardo dos Santos, promulgou a Lei Orgânica que estabelece os princípios e as regras estruturantes para as Eleições Gerais, as quais irão ocorrer no próximo ano.

jose eduardo dos santos pr de angola De acordo com o referido Diploma, compete ao Presidente da República convocar e marcar a data das Eleições Gerais, depois de ouvida a Comissão Nacional Eleitoral e o Conselho da República. O escrutínio deve, então, ser convocado até 90 dias antes do termo do mandato do Presidente da República, e dos Deputados da Assembleia Nacional, e realizam-se até 30 dias antes do fim do mesmo.

A nova Lei Orgânica estipula também que o registo eleitoral dos cidadãos é “condição indispensável para o exercício do direito de votar” e este exercício constitui “um dever cívico, pessoal, presencial e inalienável” de todos os eleitores angolanos. Segundo as palavras do Chefe de Estado, José Eduardo dos Santos, o processo fixa as bases legais para a “organização e realização de eleições transparentes, livres, credíveis e, portanto, justas”.

O Presidente da República referiu, ainda, que a aprovação da Lei Orgânica das Eleições Gerais pela Assembleia Nacional, bem como a adopção do Programa Geral de Actividades com vista à realização do Censo Geral da População, em 2013, constituem “factores relevantes para a vida nacional” e para a transparência do sistema eleitoral.

No âmbito da definição do novo pacote eleitoral, o Conselho da República recomendou, no passado dia 19 de Dezembro, a realização das primeiras Eleições Autárquicas em 2014. Reunido no Palácio Presidencial da Cidade Alta, na sua 29ª sessão, o órgão de consulta política do Presidente da República optou pelo agendamento das primeiras eleições autárquicas em 2014, tendo em conta a realização de Eleições Gerais já em 2012 e a conclusão do Censo Geral da População em 2013.

O Conselho da República considerou, ainda, positivos os resultados alcançados na primeira fase do processo de actualização geral do registo eleitoral e deu também parecer favorável à realização da segunda fase do processo, no período compreendido entre os dias 5 de Janeiro e 15 de Abril de 2012.

Até ao momento, a actualização geral dos Cadernos Eleitorais, cuja primeira fase decorreu entre 29 de Julho e 16 de Dezembro, teve um saldo de 489.159 novos eleitores registados e a confirmação de 4.751.553 eleitores que constavam já nos cadernos eleitorais, perfazendo um total de 5.240.712 eleitores angolanos.

Via | Casa Civil | Gazeta de Luanda

FMI reconhece os avanços da economia angolana (Estamos sempre a subir)

Luanda – 23/12/2011 - O Fundo Monetário Internacional (FMI) atribuiu nota positiva ao desempenho da economia angolana e ao trabalho desenvolvido pelo Executivo de José Eduardo dos Santos no que concerne à estabilidade macroeconómica de Angola e à consolidação do sistema financeiro.

De acordo com o Relatório apresentado em conferência de imprensa pelo representante residente do FMI no país, Nicholas Staines, no passado dia 12 de Dezembro, em Luanda, tal desempenho foi alcançado através da estabilidade das taxas de câmbio e da redução das taxas de juro, bem como pela restauração das reservas internacionais a um ritmo mais acelerado do que o esperado. Tais indicadores permitiram a estabilização financeira da economia angolana e uma apreciação claramente positiva do Fundo, face aos esforços desenvolvidos.

Apesar de este ser um trabalho contínuo e inacabado, Nicholas Staines salientou a consolidação fiscal alcançada pelo actual Executivo nos dois últimos anos, na sequência das medidas adoptadas para uma maior transparência e tributação das operações financeiras do sector petrolífero. O FMI saudou também as medidas tomadas no sentido de assegurar o equilíbrio das finanças públicas, permitindo assim, uma melhor avaliação dos programas e das políticas públicas.

Neste sentido, e de acordo com o vice-director do Fundo, Naoyuki Shinohara, “as autoridades angolanas merecem os cumprimentos pelo alto desempenho alcançado no quadro do Programa de Reforma e Estabilização apoiado pelo Fundo”.

Ficaram, deste modo, assinaladas as apreciações e recomendações do Conselho Executivo do FMI, no termo da quinta ronda de avaliações sobre o desempenho da economia angolana na sequência do empréstimo concedido a Angola, em Novembro de 2009. A nota positiva concedida à economia angolana assegura, assim, a continuidade do referido Programa com a libertação de uma nova tranche de crédito de 134,8 milhões de dólares.

Via | Casa Civil

terça-feira, dezembro 20, 2011

Política & Racismo em África: Conheça o mais polémico discurso di Pieter Willem Botha

Pieter Willem Botha foi a figura principal do Partido Nacional, principal agremiação política da África do Sul, de 1978 a 1989, tendo sido chefe de governo e, mais tarde, presidente da nação. Era um firme partidário da supremacia branca na África do Sul. Pôs em prática um programa para desestabilizar militar e economicamente os estados vizinhos governados por dirigentes negros; supervisionou o cumprimento das leis segregacionistas e reprimiu os protestos dos estudantes negros e dos sindicatos. No final da sua carreira política, no entanto, cedeu às pressões da comunidade internacional e aceitou um relaxamento do apartheid (segregação racial), fundamental para a supremacia branca. As reformas que introduziu, sobretudo a extensão da representação parlamentar para as comunidades negra e asiática em 1983, aumentaram a pressão por mudanças na medida em que permitiram a militância da população negra, até então excluída da política.
É um documento histórico. Directamente relacionado com uma característica exclusiva do homo sapiens: a crueldade. De facto, os humanos são a única espécie animal que pratica, aperfeiçoa e propaga em seu redor as práticas cruéis, que em algumas das suas variantes toma contornos de prazer sexual. Por isso é que este discurso é exemplar, precisamente porque é um grito de um chefe de Estado, homem inteiro e coerente, mas monstruoso, a vomitar para o universo fechado dos seus apaniguados palavras que milhões, para não dizer biliões de homens globalmente respeitáveis, na aparência moralmente irrepreensíveis, são, em determinadas circunstâncias, capazes de subscrever, por mais anti-racistas que pretendam ou digam ser.
O discurso que se segue foi proferido pelo antigo presidente sul africano, P.W Botha aos membros do seu gabinete e foi publicado por David G. Mailu no jornal The Sunday Times, da África do Sul, a 18.08.1985.
"Senhores, estimados compatriotas,
Pretória foi erguida pela mente branca para o homem branco. Não somos obrigados a provar a qualquer um nem mesmo aos pretos que nós somos um povo superior. Já demonstramos de mil e uma maneiras. A República da África do Sul que nós hoje conhecemos não foi criada apenas de sonhos. Nós criamo-la à custa da inteligência, do suor e de sangue.
Foram os afrikaners que tentaram eliminar os aborígenes australianos? São os afrikaners que descriminaram os pretos e os chamados Niggers nos Estado Unidos? Foram os afrikaners que começaram o comércio de escravos? Onde é que o homem preto é apreciado? A Inglaterra discrimina os seus pretos e a sua lei também os discrimina. Porquê tanto barulho por nossa causa? Porque nos condenam? Eu estou simplesmente a tentar provar a todos que não há nada incomum no que estamos a fazer – diferente do que o mundo chamado civilizado está a fazer.
Nós somos simplesmente um povo honesto com uma filosofia clara de como nós queremos viver a nossa própria vida branca. Nós não fingimos que gostamos de pretos como os outros brancos fazem. O facto dos negros parecerem como seres humanos e agir como seres humanos não lhes faz necessariamente sensíveis seres humanos. O porco não é porco espinho e o lagarto não é crocodilo simplesmente porque são idênticos. Se Deus nos quisesse iguais aos pretos, criava-nos a todos de uma única cor e de um intelecto uniforme. Mas criou-nos diferentemente: brancos, pretos, amarelos, governantes e governados. Intelectualmente, nós somos superiores aos pretos; isso foi provado para além de todas as dúvidas razoáveis ao longo dos anos. Eu acredito que o afrikaner é honesto e pessoa temente a Deus, que demonstrou praticamente a melhor forma de estar. Não obstante é confortável saber que nos bastidores, a Europa, o Canada., a Austrália e todos os outros dizem através de nós o que pensam. Para as relações diplomáticas, nós todos sabemos que língua deve ser usada e onde. Só para provar o meu ponto de vista, camaradas, quem de vocês conhece um país branco que não tenha um investimento ou interesse na África do Sul? Quem compra o nosso ouro? Quem compra os nossos diamantes? Quem negoceia connosco? Quem nos está a ajudar a desenvolver outra arma nuclear? A maior verdade é que nós somos o seu povo e eles são o nosso povo. É um segredo grande. A força da nossa economia é suportada pela América, Grã-Bretanha, Alemanha, etc. É a nossa forte convicção, consequentemente, que o preto é matéria-prima para o homem branco. Assim irmãos e irmãs, juntem as mãos e lutemos contra este diabo preto. Eu apelo a todos os afrikaners a saírem com meios criativos para travar esta guerra. Certamente Deus não pode condenar o seu próprio povo que somos nós. Por agora cada um de nós tem visto praticamente que os pretos não podem se governar. Dêem-lhes armas que eles vão se matar uns aos outros. São bons em nada mais do que fazer barulho, dançar, casar, muitas esposas e espojarem-se no sexo. Vamos todos aceitar que o homem preto é o símbolo da pobreza. Da mente inferior, de perder e da incompetência emocional. Não é plausível? Consequentemente que o homem branco é criado para governar o homem preto? Vamos só pensar no que aconteceria se um dia vocês acordassem com um "Kaffr" sentado no trono?
Podem imaginar o que aconteceria ás nossas mulheres? Qualquer um de vocês acredita que os pretos podem governar este país? Daí termos boas razões para deixar todos os Mandelas adeptos e seguidores na prisão. Eu penso que nos deviam elogiar por mantê-los vivos, apesar de já possuirmos, nas mãos, meios para acabar com eles. Desejo anunciar um conjunto de novas estratégias que devem ser postas em prática para eliminar este "erro" preto. Devemos a partir de agora usar armas químicas, como prioridade número um, para não permitir mais o aumento da população negra, para que não nos arrependamos mais tarde. Tenho a notícia emocionante dos nossos cientistas que desenvolveram um novo material eficiente, Estou ou a mandar mais investigadores ao terreno para identificar mais locais onde as armas químicas possam ser usadas para combater o aumento desta população. O hospital por exemplo é uma boa abertura estratégica, e deve ser inteiramente utilizado. A rede da fonte de alimento deve ser usada. Nós temos desenvolvido bons venenos que matam e destroem lentamente a fertilidade. O nosso medo é somente um, caso esse material se volte contra nós!! É só parar e pensar quantos pretos trabalham para nós. Contudo, nós estamos a fazer de tudo para nos certificamos de que o material permaneça estritamente nas nossas mãos. A segunda prioridade, é explorar a vulnerabilidade da maioria dos pretos ao dinheiro. Eu reservei um fundo especial para explorar esta faceta. O velho truque de dividir para reinar é ainda muito válido hoje. Os nossos peritos devem trabalhar dia e noite para fazer o homem preto trair os seus mentores. O seu sentido moral inferior pode ser explorado. E está aqui uma criatura com falta de carácter. Há uma necessidade de nós o combatermos, a longo prazo para que não possa suspeitar. O preto médio não planeia a sua vida para além de um ano. Esse facto por exemplo, deve ser explorado. O meu Departamento Especial está a trabalhar contra o tempo num projecto de operação a longo prazo. Estou a fazer também um pedido especial a todas às mães Afrikaner para dobrarem a sua taxa de natalidade. Pode ser necessário desenvolver urna indústria de crescimento da população, criando centros onde nós empregamos e suportamos homens novos e as mulheres inteiramente brancas para produzir crianças para a nação. Nós estamos a investigar também o mérito de aluguer de úteros como meios possíveis de apressar-se o crescimento da nossa população. Por um tempo, nós devemos também activar uma engrenagem muito sofisticada para certificar de que os homens pretos estão separados das suas mulheres e que muitas esposas casadas geram crianças ilegítimas. Eu tenho um Comité a trabalhar em torno de um mérito melhor de incitar os pretos uns contra os outros e de incentivar assassinatos entre si. Os casos de assassinatos entre pretos devem merecer uma punição muito leve a fim de os incentivar. Os meus cientistas desenvolveram uma droga que pode ser usada para efectuar envenenamento e destruição lenta da fertilidade. Trabalhar com as fábricas para fabricarem bebidas especialmente para pretos, para redução da sua população. Não é uma guerra em que nós podemos usar a bomba atómica para destruir os pretos. Assim sendo, nós devemos usar a nossa inteligência para isso. Os registos mostram que o homem preto morre para ir para cama com uma mulher branca. Esta é uma oportunidade original. O nosso esquadrão de mercenários do sexo deve estar camuflado e infiltrar-se no meio dos lutadores contra o Apartheid para administrar silenciosamente venenos de destruição lenta da fertilidade. Nó estamos a modificar estes esquadrões introduzindo homens brancos que devem ir procurar mulheres pretas militantes e todas outras pretas vulneráreis. Recebemos uma remessa nova de prostitutas da Europa e da América que estão desesperadas e demasiado desejosas de aceitar a missão. O meu último apelo é que as operações de maternidade nos hospitais devem intensificar-se. Nós não estamos a pagar aquelas pessoas para ajudar a trazer bebés pretos a este mundo mas sim eliminá-los no momento do seu nascimento. Se este Departamento trabalhasse muito eficientemente, muito se poderia conseguir. O meu governo reservou um lucro especial para erguer hospitais e clínicas secretas para promover este programa. O dinheiro pode fazer qualquer coisa para nós. Enquanto nós o tivermos, devemos fazer o melhor uso dele. Entretanto, meus adoráveis concidadãos brancos, não levem a peito o que o mundo diz e não se envergonhem de ser chamados racistas. Eu não me chateio por ser chamado de arquitecto e rei do apartheid. Eu não me transformarei num macaco simplesmente porque alguém me chamou de macaco. Eu continuarei a sei a vossa estrela brilhante... sua excelência. Botha.

*Publicado in "The Sundy Times", de 18 de Acosto de 1985

terça-feira, dezembro 06, 2011

MPLA 55 anos: Heróis da liberdade foram distinguidos com as medalhas “10 de Dezembro”, “17 de Setembro”, “Deolinda Rodrigues” e “Militante de Vanguarda”

Mérito é reconhecido com as medalhas “10 de Dezembro”, “17 de Setembro”,
“Deolinda Rodrigues” e “Militante de Vanguarda”

O MPLA conta desde ontem com um novo sistema de distinções, com base no qual passam a ser homenageados com as medalhas “10 de Dezembro”, “17 de Setembro”, “Deolinda Rodrigues” e “Militante de Vanguarda”, os membros da sua direcção e aqueles que mais se tenham destacado no cumprimento de tarefas e missões.
O Presidente José Eduardo dos Santos esteve presente na cerimónia, acompanhado por membros do bureau político e representantes das várias estruturas do partido.
Foram distinguidos com medalhas os membros do MPLA de várias gerações.
Alguns dos nomes anunciados na sala principal do Centro de Conferências de Belas, foram condecorados o presidente José Eduardo dos Santos, o vice-presidente Roberto de Almeida, o secretário-geral Julião Mateus Paulo “Dino Matross”, Agostinho Mendes de Carvalho, Afonso Van-Dúnem Mbinda, Maria Eugénia Neto, Manuel Pedro Pacavira, Lúcio Lara, Lopo do Nascimento, Luzia Inglês e Rodeth Gil.
Entre salvas de palmas, foram ainda distinguidos nas diferentes categorias Fernando da Piedade Dias dos Santos, Paulo Kassoma, Ruth Neto, Carlos Alberto Ferreira Pinto, Faustino Muteka, Dulce Ginga, Carlos Feijó, João Baptista Kussumua, Higino Carneiro, Eusébio de Brito Teixeira, Paulo Pombolo, Maria Caposso, Pedro Domingos Peterson, Vitória Izata, José Domingos Ngola Yeto.  Foi feita a entrega da medalha de reconhecimento a Conceição Boavida, viúva de Américo Boavida. Este foi um dos momentos mais aplaudidos da cerimónia. “Este é um acto de grande significado político e social e uma importante iniciativa”, disse o Presidente José Eduardo dos Santos, no discurso de abertura da cerimónia, sublinhando que as homenagens têm lugar numa altura em que o partido se prepara para comemorar 55 anos de existência e “assinalar o 36º ano à frente dos destinos de Angola como Nação independente e soberana”.
José Eduardo dos Santos disse que “estamos aqui para reconhecer e enaltecer o mérito de muitos que estão nesta sala e de muitos outros grandes patriotas que já nos deixaram, cuja luta abnegada e vitoriosa, rodeada de enormes vicissitudes, permitiram libertar Angola e construir o que temos hoje”. Referiu-se a Agostinho Neto como “figura política central da nossa História e fonte de inspiração na luta que o nosso partido conduz desde o seu desaparecimento físico até aos nossos dias”.
O presidente do MPLA considerou que “são muitos anos de lutas e de muito empenho na concretização das mais profundas aspirações do povo angolano, num contexto interno e internacional de muitas dificuldades e de graves atentados à nossa soberania e integridade territorial”.

Para José Eduardo dos Santos, a homenagem feita aos membros do MPLA, muitos dos quais combateram pela libertação nacional, defesa da soberania e pela conquista da paz, significa também homenagear os “angolanos que não hesitaram em fazer sacrifícios para que pudéssemos hoje viver em paz e em democracia, criando condições para um futuro de progresso e de bem-estar para todos”.
O líder do MPLA defendeu que a homenagem feita aos “valorosos militantes e aos combatentes”, pretende ser extensiva a “todos os patriotas e aos heróis anónimos que a História não registou, mas que são também pilares da pátria em construção”.

Ano de eleições

José Eduardo dos Santos lembrou que 2012 reserva ao partido “tarefas acrescidas” por causa das eleições gerais.  “Tenho a certeza de que o MPLA vai continuar a provar à sociedade que dispõe do melhor programa de governação e é o que melhor está preparado para defender os interesses do povo angolano”, referiu.
Para o líder do MPLA é fruto da crença no binómio “MPLA-Povo”, que o país está “por mérito próprio entre as nações que mais crescem e se desenvolvem no mundo, provando assim o rumo que escolhemos é o que melhor serve a resolução dos problemas que ainda afectam grande parte da nossa população”.

Via | JA

quinta-feira, novembro 10, 2011

Carta Aberta dos Intelectuais Africanos: “Líbia, África e a Nova Ordem Mundial”

- Introdução de Theotonio dos Santos -

Lúcida nota de intelectuais africanos sobre a situação da Líbia Que bela lição de lucidez, que mostra como a África é uma das maiores reservas morais da humanidade. A preocupação dos intelectuais africanos por manter uma ordem jurídica mundial justa e por deter a ação neocolonialista apoiada por intelectuais que se pretendem de esquerda como uma revolução social contra o ditador sanguinário. Ai daqueles que pensam ignorar os povos africanos na construção de uma sociedade moderna, civilizada, justa e humana. Ai dos que pretendem assaltá-la para arrancar-lhe suas imensas riquezas à custa de uma sanguinária intervenção militar e mediática (quantas mentiras já se detectou nesta campanha militar diante das quais os meios de comunicação ocidental tiveram que desculpar-se. Como pode ser que um tribunal penal internacional, criado para deter as ações contra os direitos humanos, não somente condena a priori governantes africanos ou eslavos, como assumem como sua responsabilidade notícias falsas sobre a prisão do filho de Gadafi!).
Que vergonha que os nossos meios de comunicação se  encham de pronunciamentos contrários ao respeito pelo Itamarati ao direito internacional e se coloquem a favor da volta ao poder na Líbia daqueles que impunham a bandeira  da monarquia, apoiados militar, econômica e moralmente pelas 3 monarquias que circundam o Líbano. Que terrível ver nas televisões “ocidentais” (sem nenhum protesto!) estes “rebeldes” soltarem da prisão 600 prisioneiros ligados à Al Quaida, quando se pretende mover uma guerra internacional contra esta organização, na verdade, cada vez mais fortalecida em todo o mundo árabe e norteafricano a partir das odiosas ações imperialistas na região. Seria possível aceitar estas condutas vergonhosas numa ação contra um país “ocidental”? Está se assegurando a paz e a democracia com estes bombardeios sempre “equivocados” matando crianças e civis? Espero que haja um mínimo de cordura para ler com isenção este manifesto magnífico dos
intelectuais africanos.

 

Líbia, África e a Nova Ordem Mundial  - Carta Aberta dos Intelectuais Africanos

Rosebank, Johannesburg, África do Sul, 11/8/2011

Nós abaixo-assinados somos cidadãos africanos comuns, todos imensamente condoídos e indignados, vendo que africanos como nós estão submetidos aos horrores da guerra, atacados por potências estrangeiras que claramente  repudiaram a visão nobre e relevante inscrita na Carta das Nações Unidas [1].

A ação de escrever essa carta é inspirada por nosso desejo, não de escolher lados, mas de proteger a soberania da Líbia e o direito do povo líbio de escolher seus líderes e determinar o próprio destino.

A Líbia é país africano.

Dia 10 de março, o Conselho de Paz e Segurança da União Africana aprovou importante resolução (3) na qual se delineou o mapa do caminho para encaminhar a solução do conflito líbio, consistente com os deveres da União Africana nos termos do Capítulo VIII da Carta das Nações Unidas.

Quando o Conselho de Segurança da ONU aprovou sua Resolução n. 1.973, sabia da decisão da União Africana, anunciada sete dias antes.

Ao decidir ignorá-la, o Conselho de Segurança deliberadamente contribuiu para subverter a lei internacional, além de comprometer a legitimidade da ONU aos olhos dos povos africanos.

Desde então, por outros caminhos, tem ajudado a promover e aprofundar processo imensamente pernicioso de marginalizar a África entre as demais nações do mundo, também no que tenha a ver com solucionar os problemas do continente.

Indiferente ao que determina a Carta das Nações Unidas, o Conselho de Segurança da ONU declarou sua guerra privada contra a Líbia, dia 17/3/2011.

O Conselho de Segurança deixou-se manipular pelo que o International Crisis Group (ICG), em seu Relatório sobre a Líbia, de 6/6/2011[2], descreve como “matérias jornalísticas sensacionalistas segundo as quais o regime líbio estaria usando sua Força Aérea contra manifestantes”. 

Assim (mal) informado, o CS-ONU aprovou a Resolução n. 1.973, que autorizava que se impusesse uma “zona aérea de exclusão” sobre a Líbia e que se tomassem “todas as medidas necessárias (...) para proteger civis e áreas populosas sob ameaça da Jamahiriya Líbia Árabe (...)”.

Assim, sobretudo, o Conselho de Segurança usou o conceito altamente controverso e sob o qual não há consenso entre os especialistas em direito internacional da “responsabilidade/direito de proteger”, chamado R2P, para justificar a intervenção militar de que trata o Capítulo VII, na Líbia.

Sob essa duvidosa cobertura, o Conselho de Segurança da ONU já cometeu longa lista de agressões que configuram a transformação desse Conselho em instrumento a serviço dos desejos dos estados militarmente mais poderosos dentre seus estados-membros. Até agora, o Conselho de Segurança não conseguiu apresentar nenhuma evidência de sua autorização para o uso da força nos termos do Capítulo VII da Carta da ONU tenha sido
resposta proporcional e adequada a uma situação que, na Líbia, e depois da intervenção militar, foi convertida em guerra civil.

Em seguida, o Conselho de Segurança ‘terceirizou’ ou ‘subcontratou’ a implementação de sua resolução para a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), admitindo que essa aliança militar agisse como uma “coalizão de vontades”.

O Conselho de Segurança não cuidou de implantar qualquer mecanismo ou processo para supervisionar os ‘serviços’ do exército ‘subcontratado’, de modo a garantir que as provisões de suas Resoluções fossem completamente e satisfatoriamente atendidas. 

Tampouco fez qualquer esforço para monitorar e analisar as ações da OTAN ‘subcontratada’. O Conselho de Segurança permitiu que se estabelecesse um “Grupo de Contato” sem qualquer legitimidade e sem autorização legal formal – mais uma “coalizão de vontades” – que, de fato, desconstituiu a própria autoridade do Conselho de Segurança como autoridade competente para interferir no futuro da Líbia.

Confirmando essa desconstituição inadmissível, em reunião do dia 15/7/2011 em Istambul, esse “Grupo de Contato” “reafirmou que o Grupo de Contato continua como plataforma adequada e ponto focal de contato com o povo líbio, para coordenar a política internacional e ser um fórum de discussão do apoio humanitário e apoio pós-conflito”. 

Dada a omissão do Conselho de Segurança, as duas “coalizões de vontades” – a OTAN e o “Grupo de Contato” –, de fato e para todos os efeitos, reescreveram a Resolução n. 1.973. Assim, as tais “coalizões de vontades” abertamente  assaltaram um poder que legitimamente só o Conselho de Segurança poderia ter e puseram-se a trabalhar para derrubar o governo líbio, golpe que passou a ser designado como ‘mudança de regime’.

Para esse objetivo, passaram a usar da força e de todos os meios para derrubar o governo líbio – objetivo que absolutamente nada tem a ver com as decisões do Conselho de Segurança da ONU.

Mediante esses artifícios e sem qualquer atenção às Resoluções n. 1.970 e 1.973, aquelas “coalizões de vontades” atreveram-se a declarar ilegítimo o governo da Líbia e a proclamar um ‘conselho nacional de transição’ organizado em Benghazi como “legítima autoridade governante na Líbia”.

O Conselho de Segurança da ONU é hoje absolutamente incapaz de explicar como as decisões tomadas pela OTAN e pelo “Grupo de Contato” teriam algo a ver com a questão crucial de “facilitar o diálogo com vistas às reformas políticas necessárias para encontrar solução pacífica e sustentável” para o conflito na Líbia. 

As ações de seus ‘subcontratados’ – a OTAN e o “Grupo de Contato” – converteram a ONU em parte beligerante no conflito líbio, desnaturando a Organização cujo papel só poderia ser de pacificador neutro e equidistante, igualmente, das duas facções armadas que disputam o poder na Líbia.

Não bastasse, o Conselho de Segurança optou por repudiar a lei internacional, ao deliberadamente ignorar o que determina o Capítulo VIII da Carta das Nações Unidas sobre o papel das instituições regionais legítimas.

A ‘guerra ao terror’ de George W. Bush contra o Iraque começou dia 20/3/2003. No dia seguinte, 21/3/2003, o jornal britânico The Guardian publicou um curto artigo assinado pelo conhecido neoconservador norte-americano Richard Perle, sob o título “Graças a Deus a ONU morreu. Seu fracasso abjeto só nos trouxe anarquia. O mundo precisa de ordem” [3]. Mas toda a arquitetura global do pós-Segunda Guerra Mundial, para manutenção da paz e da segurança internacionais centravam-se no respeito à Carta das Nações Unidas.

Hoje, o Conselho de Segurança da ONU deve saber que, pelo menos no que tenha a ver com a Líbia, atuou de modo que resultou em, e levou a, perder toda a autoridade moral para efetivamente presidir a discussão e o encaminhamento de processos criticamente importantes para que se alcance a paz global e se realize o objetivo da coexistência pacífica entre os povos do mundo.

Ao arrepio de tudo o que determina a Carta das Nações Unidas, o Conselho de Segurança autorizou e permitiu a anarquia que se abateu sobre o povo líbio.
Ao final disso tudo, o que se vê é que:
– muitos foram mortos ou aleijados; 
– grande parte da infraestrutura do país foi destruída, o que empobreceu ainda mais o povo líbio; 
– a animosidade e as fissuras que dividem o povo líbio foram aprofundadas; 
– a possibilidade de chegar-se a um acordo negociado, inclusivo e estável tornou-se menor que nunca;
– a instabilidade aumentou em todos os países vizinhos da Líbia, sobretudo nos países do Sahel africano (Sudão, Chad, Niger, Mali e Mauritânia);
– a África herdará desafio muito maior e mais difícil no que tenha a ver com questões de paz e estabilidade e, portanto, afastar-se-á ainda  mais da via do desenvolvimento sustentável;
– os que intervieram para perpetuar a violência e a guerra na Líbia fixarão os parâmetros sob os quais os líbios poderão decidir sobre o próprio destino e, assim, tornarão ainda mais limitado o exíguo espaço no qual os africanos lutam pelo seu direito a autodeterminação.

Como africanos, antevimos um futuro em que seríamos atores relevantes num sistema de relações internacionais justas, confiando que a ONU realmente zelaria pelo seu direito legítimo de atuar como “as fundações da nova ordem mundial”,

 

O Relatório do ICG citado acima diz:
“O que se pode prever para a Líbia, mas também para todo o norte da África, é cada vez mais terrível, a menos que se encontre meio pelo qual induzir os dois lados envolvidos no conflito armado na Líbia a negociar um acordo que permita transição pacífica para um estado pós-Gadaffi, pós-Jamahiriya, e que seja estado considerado legítimo pelo povo líbio. Uma saída política é, de longe, a melhor solução possível, ante a dificílima situação criada
pelo impasse militar.” 

Quando Richard Perle escreveu em 2003 sobre o “fracasso abjeto da ONU”, reclamava contra a ONU ter-se recusado a curvar-se ante a ditadura da única superpotência mundial, os EUA.
A ONU assumiu aquela posição, porque estava consciente da, e inspirada por, sua obrigação de agir como verdadeira representante de todos os povos do mundo, nos termos de abertura da Carta das Nações Unidas: “Nós, os povos das nações unidas, resolvidos a preservar as gerações vindouras do flagelo das guerras...”
Contudo, e tragicamente, oito anos depois, em 2011, o Conselho de Segurança da ONU abandonou qualquer compromisso com essa determinação.
Açoitado pela humilhante experiência de 2003, quando os EUA demonstraram que o único poder é a violência, o Conselho de Segurança decidiu que mais fácil seria submeter-se à violência dos poderosos, que honrar o dever de respeitar o soberano desejo dos povos – também das nações africanas, é claro. Então divulgou a mensagem de que aceitava nada ser além de instrumento nas mãos dos senhores da violência mais brutal, os mais brutais no sistema das relações internacionais, e que a violência, portanto, passaria a comandar a ordenação dos negócios humanos.

Como africanos, temos de levantar-nos e reafirmar nosso direito e nosso dever de determinar nosso destino, na Líbia e em qualquer outro ponto de nosso continente. Exigimos que todos os governos, em todos os cantos  do mundo, também na África, que almejem alcançar genuíno respeito dos governados, como nós, ajam imediatamente para reafirmar “a lei pela qual todas as nações possam viver dignamente”. 

Exigimos que:
– tenha fim imediatamente a guerra de agressão da OTAN contra a Líbia; 
– a União Africana seja apoiada para implementar seu plano para ajudar o povo líbio a alcançar a paz, a democracia, prosperidade para partilhada e a reconciliação, numa Líbia unida; e que
– o Conselho de Segurança aja imediatamente para cumprir suas responsabilidades, como definidas na Carta das Nações Unidas.

Os que desencadearam tempestade mortal de bombas sobre a Líbia não devem persistir na autoilusão de que o aparente silêncio dos milhões de africanos signifique qualquer tipo de aprovação à campanha de morte, destruição e dominação que aquela tempestade parece
assegurar.

Estamos confiantes. Reemergiremos vitoriosos, por mais que façam os semeadores de morte dos mais poderosos exércitos do mundo.
Responderemos na prática da vida e como africanos. Em todos os momentos e pelos meios necessários, agiremos resoluta e deliberadamente para defender o direito de os africanos da Líbia decidirem o próprio futuro e, por essa via, defenderemos o direito e o dever de todos
os africanos determinarmos nosso destino.

O Mapa do Caminho proposto pela União Africana [4]  ainda é o melhor caminho para garantir a paz ao povo da Líbia.

[seguem-se 140 assinaturas de intelectuais, artistas, professores, religiosos, políticos e personalidades africanos]. [1] Em português, em

http://www.oas.org/dil/port/1945%20Carta%20das%20Na%C3%A7%C3%B5es%20Unidas.pdf
[2] Em http://www.crisisgroup.org/en/regions/middle-east-north-africa/northafrica/libya/107-popular-protest-in-north-africa-and-the-middle-east-v-making-sense-oflibya.aspx (em inglês).
[3] “Thank God for the death of the UN. Its abject failure gave us only anarchy. The world needs
order”, 21/3/2003, Richard Perle, The Guardian, UK, em
http://www.guardian.co.uk/politics/2003/mar/21/foreignpolicy.iraq1.
[4] “African Union proposes Libya roadmap to peace”, 10/4/2011,
http://www.socialistunity.com/?p=7976 (em inglês).

(11/8/2011, AllAfrica -- http://allafrica.com/stories/201108120282.html)

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