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terça-feira, dezembro 23, 2014
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segunda-feira, janeiro 13, 2014
ENTREVISTA COM GEORGE CHIKOTI | "A União Africana deve ter autoridade"
Luanda acolhe a partir de hoje a quinta cimeira dos Chefes de Estado e de Governo da Conferência Internacional sobre a Região dos Grandes Lagos (CIRGL), que marca o início da presidência angolana na organização, sucedendo ao Uganda. O ministro das Relações Exteriores, Georges Chikoti, falou ao Jornal de Angola sobre os objectivos da cimeira e do mandato que começa, numa altura em que alguns Estados-membros estão mergulhados em graves crises políticas.
Jornal de Angola - Por que razão foi criada a Conferência Internacional sobre a Região dos Grandes Lagos?
Georges Chikoti - A CIRGL surgiu num momento marcado por conflitos na República Democrática do Congo, Ruanda, Burundi, bem como em toda a região dos Grandes Lagos. Tinha-se a percepção que os copnflitos que ocorriam num país tinham origem noutro. Estávamos na década de 1990, quando se deu o declínio da liderança de Mobutu e a chegada de Kabila ao poder. Havia grande animosidade em relação à RDC, particularmente da parte do Ruanda, Uganda e do Burundi. A RDC era visto como um alvo pelo seu tamanho e quantidade de recursos naturais. A região encerra esta sobreposição de aspectos políticos, geográficos, históricos e até geológicos e a criação da CIRGL foi a forma de trazer todos os países, os mais relacionados com os conflitos e os que estão à volta, e a comunidade internacional para em conjunto se olhar para a região numa perspectiva de longo prazo, solucionando os grandes problemas, principalmente os de guerra civil, genocídios e rebeliões. O objectivo prioritário da assinatura do pacto de segurança e desenvolvimento em 2006 foi transformar a região numa zona pacífica e estável.
JA - Quais as grandes metas da presidência angolana, numa altura em que se assiste ao reacender de vários conflitos na região?
GC - O objectivo essencial da organização é trabalhar para a consolidação da paz e do desenvolvimento. Angola, depois de ter passado por um longo período de guerra, conseguiu chegar à paz e à reconciliação nacional e empenhou-se num processo de desenvolvimento económico nacional sem nunca se ter isolado dos problemas à sua volta, como os da RDC, Namíbia e África do Sul. O nosso país sempre fez parte das soluções globais no âmbito da União Africana e foi por isso que os Chefes de Estado da CIRGL manifestaram na última cimeira desta organização desejo de ter Angola na presidência.
JA - A presidência chega pouco depois do governo da RDC ter reconhecido o papel importante de Angola para o fim do conflito armado naquele país.
GC - Angola sempre manteve uma posição coerente, embora houvesse vezes em que não fomos bem compreendidos, mas a verdade é que em momento algum tivemos outra posição que não fosse a de contribuir para a paz e estabilidade na RDC. Sempre desejámos que a RDC tivesse estabilidade porque com isso também somos beneficiados no processo de desenvolvimento.
JA - Como tem sido desempenhado o papel de Angola?
GC - Em todas as negociações para uma paz global no Congo estivemos sempre comprometidos, como também nos retirámos sempre quando considerámos que o nosso papel estava concluído. Ajudámos a RDC na fase de libertação, na consolidação da paz e hoje, na base do acordo tripartido, achamos que devemos continuar a ajudar na sua estabilização. Nunca fomos indiferentes noutras situações ou regiões. Ajudámos a Namíbia e a África do Sul e quando presidimos ao Órgão de Política de Defesa e Segurança da SADC também auxiliámos Madagáscar. Trata-se de uma obrigação para com os amigos e parceiros. Temos boas relações com o Uganda e com o Ruanda e por isso queremos que ultrapassem a fase de adversidade.
JA - O que esperar de parceiros como a ONU e a UA nos próximos dois anos da presidência angolana?
GC - Temos a certeza que Secretário-Geral das Nações Unidas está comprometido e inclusivamente consultou-nos para a realização da reunião de 24 de Fevereiro do ano passado, em Addis Abeba, que levou à assinatura do acordo para consolidação da paz e segurança e serviu de base à mobilização da brigada especial para garantir a segurança na fronteira entre a RDC e o Ruanda e com o Uganda e teve um papel importante na derrota do M23.
JA - O que dizer dos ataques que recentemente abalaram Kinshasa e outras cidades congolesas?
GC - Há um inquérito para apurar as causas do que aconteceu, mas parece ser importante que os congoleses apreciem a paz que podem ter porque senão a RDC corre o risco de se tornar num país que não sai do círculo vicioso dos conflitos, de disputas e de rebeliões.
JA - O que tem falhado na RDC?
GC - É importante que haja uma política que permita a consolidação da paz e o desenvolvimento da RDC e com isso a extinção dos vários diferentes grupos rebeldes que ainda há naquele país. É importante que haja uma vontade muito clara dos governantes de ultrapassarem as diferenças políticas e analisarem formas de formar governos cada vez mais inclusivos. A RDC é a primeiro país em África a viver uma guerra civil de secessão, a do Katanga na década de 1960. É por isso que uma Conferência Internacional sobre os Grandes Lagos pode ser importante porque os congoleses democráticos podem cooperar na criação de instituições que sirvam todos os Estados.
JA - Tem faltado entendimento?
GC - É necessário reduzir a animosidade e promover maiores consensos para a solução dos problemas. Esta é a visão que temos e achamos ser também a perspectiva do Secretário-Geral da ONU. Durante a nossa presidência queremos a paz e desenvolvimento. A RDC estável permite acelerar o desenvolvimento do continente. Por isso durante a nossa presidência queremos trabalhar com todos para reduzir o potencial de conflitos e participarmos activamente no processo de estabilidade regional.
JA - Qual é a situação actual do Diálogo de Campala?
GC - A nossa esperança era que, terminado o conflito militar, a RDC aproveitasse a oportunidade para rapidamente assinar um acordo com o movimento rebelde e se passasse às fases da desmobilização e reinserção social dos revoltosos. Infelizmente, o processo não se desenvolveu como se esperava e ainda não se assinou um documento suficientemente claro que permita concluir que deixaram de lutar. O potencial de conflito permanece. A posição de Angola sempre foi de encorajar o governo de Kinshasa a ultrapassar essa situação e passar à fase do desenvolvimento. Os ataques que se verificaram naquele país levam-nos a concluir que podem urgir novos conflitos, o que nos preocupa, pois desejamos que as negociações de Campala se concluam. É certo que o M23 é apenas uma das facções, mas considero importante que se dê esse passo para depois se ver como concluir as negociações com os outros grupos rebeldes.
JA - O fim do conflito militar na RDC reduz ou aumenta o grau de complexidade da presidência angolana na CIRGL?
GC - Trabalhar em paz é sempre melhor do que num ambiente de conflito. Neste momento, aparentemente a situação de conflito armado deixou de existir na RDC, mas surgiram os ataques de Kinshasa, Lubumbashi e Kissangani, entre outros, e ninguém consegue dizer ao certo o nível de estabilidade que o país regista. Num ambiente de paz a nossa contribuição é melhor, mas estamos na disposição de apoiar a RDC se o conflito prevalecer.
JA - Num ápice surgiram conflitos na República Centro Africana e no Sudão do Sul. Como é que Angola encara a situação, agora que assume a presidência da CIRGL?
GC - Ninguém contava que o Sudão do Sul, com pouco mais de ano de existência, pudesse viver um conflito tão profundo. Mas isso também tem a ver com as lideranças africanas, pois as diferenças no continente são grandes, o que significa que há sempre a possibilidade de haver uma divergência e despoletar um conflito. As pessoas têm de ter consciência que nem tudo é resolvido pela força das armas, pela morte de pessoas inocentes. O Sudão do Sul ainda nem sequer conseguiu usufruir do rendimento do petróleo e já se vê num conflito extremamente grave. Esperamos que a reunião que decorre na Etiópia termine com este conflito. Quanto à RCA, é preciso perceber que nos últimos 50 anos teve uma sucessão de golpes de Estado e de sublevações. Vamos esperar que a resolução 21/27 das Nações Unidas possa encontrar uma solução e conte com o empenho da União Africana. É um ambiente extremamente difícil porque passou a ser um conflito religioso, entre muçulmanos e não muçulmanos, entre o antigo e o novo regime.
JA - Qual é a expectativa de Angola?
GC - A nossa ideia é que a resolução venha permitir a solução deste caso, com a mobilização de forças o mais isentas possível em relação à RCA. Agora com o Sudão do Sul e a RCA em conflito, que são países com uma fronteira extensa, torna-se mais complexa a situação e difícil de antever uma saída. Há uma reunião de reflexão dos ministros dos Negócios Estrangeiros no dia 24, em Addis Abeba, e outra dos Chefes de Estado-Maior, na mesma cidade, para olharmos para a arquitectura da Defesa e Segurança da União Africana e para a mobilização de forças para as várias situações que exigem uma presença militar.
JA – Como é que a ONU, a UA e outras organizações sub-regionais podem ajudar na solução de conflitos como estes?
GC - Parece pertinente que haja menos ingerência externa e mais participação dos africanos e das suas instituições. A União Africana devia ser a única organização a velar pelas questões de paz e segurança no continente. Os Chefes de Estado já definiram como isso deve funcionar. Em todos os conflitos em África devem ser as forças da União Africana a intervir e a decidir com quem trabalhar para solucionar os problemas. Só assim podemos evitar que sejam em primeira instância geridos ou tratados por outras forças que não sejam as do nosso continente.
JA – Como vê o papel da União Africana?
GC - É preciso que a União Africana recupere a sua autoridade política e moral, e através das suas instituições viabilize a criação da sua força de intervenção para esse tipo de conflitos. África não pode pôr a agenda do desenvolvimento económico à frente se ainda não consegue garantir e assegurar a sua própria paz. É preciso discutir-se claramente nos termos em que a União Africana concebeu a sua arquitectura para as questões de paz e segurança. Porque hoje a nível da SADC temos essa arquitectura a funcionar. O chefe de Estado-Maior é angolano e funciona em Gaberone. É preciso que toda a África tenha essas forças. Isso é que devia ser prioridade para a solução desse tipo de situações, porque na condição em que nos encontramos arriscamo-nos a continuar a ver primeiro forças de outros países e só depois os africanos. O ideal, sublinho, é criarmos os nossos próprios mecanismos em condições de termos primazia na solução dos conflitos em África.
JA – A que distância nos encontramos dos objectivos que nortearam a criação da CIRGL?
GC - O pacto de segurança e desenvolvimento adoptado em 2006 com o objectivo de acelerar o desenvolvimento da região e do continente existe. Mas quando vamos para a implementação percebemos que ainda estamos um pouco longe. Mas também convém admitir que já há muitas actividades que ocorrem a nível da juventude, da defesa dos direitos da mulher, etc. O que nos deixa preocupados é quando temos um caso como o da RCA, em que há inicialmente uma perturbação que depois passa a ser uma guerra entre comunidades religiosas. Isso é extremamente mau. É necessário que se ponha fim à dimensão dos conflitos, tanto os que ocorrem ou ocorreram na RDC, onde as tropas vinham dos países vizinhos, e depois todos chegarmos à conclusão de que só poderemos pensar em desenvolvimento quando todos abandonarmos as armas.
JA - O que prevê o pacto da CIRGL?
GC - O pacto da CIRGL prevê vários tipos de soluções em função da natureza dos conflitos. Se o motivo da disputa é a riqueza devem criar-se empresas que permitam uma exploração conjunta. A nível dos Grandes Lagos já se discutem profundamente essas questões. O problema é quando surgem conflitos inesperados. É necessário que essa questão dos conflitos seja prioritária e resolvida, tanto a nível da CIRGL, como da UA. Até há pouco tempo pensava-se que África estava no fim do período dos golpes de Estado e das guerras civis, mas surgiram as da RCA, Sudão do Sul e RDC, que nos levam a pensar o contrário, mas é necessário acabarmos com todos os problemas políticos e militares que se opõem ao desenvolvimento do continente.
JA – Estamos muito longe disso?
GC – Temos pela frente algumas cimeiras e encontros para reflectir sobre a questão dos conflitos em África, especialmente os mais difíceis de solucionar, como os da Somália, Nigéria, Mali, ou quando se tornam religiosos, como no Egipto e na Líbia. Temos de pensar bem sobre a origem desses conflitos. Devemos ser os primeiros a decidir com quem vamos trabalhar. Alguns países africanos pensam dessa forma, mas não avançam porque não confiam na força das suas organizações na resolução de questões que são prioritárias.
JA - Referiu-se no ano passado a anomalias no funcionamento do secretariado da CIRGL, razão pela qual foi convocada uma reunião para discutir o assunto. A situação ficou resolvida?
GC - O secretariado existe e tem funcionado. Temos um secretário executivo adjunto. O problema é o mesmo da maioria das organizações africanas, a falta de contribuições. Os Estados não contribuem. Quando o orçamento não é suficiente estamos apenas a pagar os salários e a fazer algumas reuniões. É também importante que se respeite os estatutos da organização. Há muitas coisas a corrigir, mas temos funcionários extremamente capazes e é preciso dar-lhes força para continuarem a trabalhar.
JA - Quais os grandes temas da agenda da cimeira?
GC - Vamos tratar essencialmente dos conflitos que se registam na região, pelo que prevemos realizar reuniões dos Chefes de Estado-Maior, de ministros da Defesa, dos Negócios Estrangeiros e dos Chefes de Estado e de Governo. Vamos debruçar-nos igualmente sobre a dimensão humanitária dos conflitos, o tipo de ajuda que pode ser prestada e também tratar de algumas questões internas. Assumimos a presidência da CIRGL de coração aberto, para ajudar e sermos úteis aos outros. Queremos partilhar experiências e ajudar no que for necessário para que o continente viva em paz e possa desenvolver-se. Se é rico temos de trabalhar para proporcionar paz e estabilidade e assim explorar essa riqueza para o bem das comunidades africanas.
JA - No ano passado, o Presidente José Eduardo dos Santos disse que apesar dos problemas é possível desenvolver o continente e criticou o ‘afropessimismo’. Podemos esperar uma presidência ‘afro-optimista’?
GC - Passamos por maus bocados durante muitos anos e nunca deixámos de acreditar que um dia íamos ter paz. Já estivemos pior do que muitos países a que já fizemos referência e nunca perdemos o optimismo de acabar com a guerra e vivermos melhor. Nesta fase em que estamos empenhados no desenvolvimento de Angola e também dos nossos vizinhos não há razões para sermos pessimistas. Temos de resolver as questões prioritárias para podermos fazer o desenvolvimento do nosso continente.
Via|JA/Kumuênho da Rosa
Nova Colonização 2014 | Angola recusa pedido de soldados para a República Centro Africana
O Presidente angolano José Eduardo dos Santos disse que o seu governo não vai enviar tropas para a República Centro Africana.
Dos Santos falava na cerimónia de cumprimentos de ano novo ao Corpo Diplomático e respondia assim a um apelo do Secretário-geral da ONU para a União Africana acelerar o envio de tropas para aquele país, mas o presidente angolano disse que o seu país está disposto a enviar ajuda humanitária aos deslocados.
A República Centro Africana tem vindo a mergulhar no caos apesar do envio de tropas francesas e algumas unidades africanas.
Nos últimos dez meses, a RCA mergulhou numa espiral de violência comunitária e inter-religiosa, sem que as autoridades de transição fossem capazes de controlar a situação.
Na intervenção que fez em Luanda ao Corpo Diplomático, José Eduardo dos Santos reiterou a "total disponibilidade" de Angola em contribuir ao nível da União Africana, das Nações Unidas, em especial através do Conselho de Segurança, "na preservação e restabelecimento da paz, da estabilidade e da segurança universal".
A força africana na Republica Centro Africana deveria ser composta por 6.000 homens, mas a União Africana ainda só conseguiu reunir 3.500 soldados, 1.200 dos quais são do Chade.
A França enviou 1.600 militares para a RCA, que mergulhou no caos desde o golpe de Estado de Março realizado pela coligação rebelde Séléka, com origem na minoria muçulmana, que afastou o Presidente François Bozizé e deixou como presidente Michel Djotodia. Este foi forçado a demitir-se e refugiou-se no Benin.
Djotodia chegou ao Benin Sábado um dia depois de um bloco regional de países africanos ter anunciado a sua demissão e a do primeiro ministro Nicolas Tiengaye.
Entretanto o dirigente e transição da República Centro Africana apelou á calma e ao fim da violência que tem afectado o país.
Alexandre Ferdinand Nguendet pediu hoje ao país para permanecer calmo e confiar nas medidas que o seu governo esta a iniciar para estabelecer a paz e a segurança.
O apelo foi feito um dia depois de pilhagem generalizada e violência na capital Bangui na sequência da demissão forçada do presidente Michel Djotodia.
Via|VOA
sexta-feira, dezembro 28, 2012
O FMI defende debate sobre criação de fundo soberano de Moçambique
O Fundo Monetário Internacional (FMI) defendeu hoje o início de “um debate mais a fundo” sobre a eventual criação de um fundo soberano de Moçambique para gerir “as significativas receitas dos recursos minerais”.
Questionado hoje pela Lusa, o representante do FMI em Moçambique, Victor Lledó, disse que se “deve fazer um debate mais a fundo” sobre o fundo soberano, não sobre a sua necessidade, mas sobre o desenho desse instrumento.
“Ainda há um horizonte de alguns anos até que as receitas advindas dos recursos minerais se tornem significativas, mas é importante iniciar este debate sobre quais seriam as linhas e o desenho de um possível Fundo Soberano o mais cedo possível para que se chegue a um consenso”, disse.
A instituição de um fundo soberano de riqueza pode ser “um instrumento que seja legítimo e efetivo e útil para o caso de Moçambique fazer uma gestão possível das significativas receitas dos recursos minerais, que se esperam que comecem a fluir na próxima década”, disse Victor Lledó.
Economistas moçambicanos e internacionais têm discutido a criação de um fundo soberano sustentando a sua constituição com as pesquisas de recursos minerais, nomeadamente os hidrocarbonetos.
Nos últimos tempos, multinacionais envolvidas na prospeção de recursos naturais em Moçambique anunciaram importantes descobertas de carvão e gás natural no centro e no norte do país, a que se somam reservas já em exploração no sul.
Esta semana, o primeiro-ministro de Moçambique, Alberto Vaquina, anunciou pela primeira vez a posicionamento das autoridades moçambicanas em relação à criação do fundo soberano.
“Se for para guardar dinheiro em bancos internacionais enquanto precisamos de dinheiro para nos desenvolvermos, não creio que seja uma boa aposta. Ainda é uma discussão, ainda não temos recursos, estamos a discutir o ovo enquanto ainda está na galinha”, disse Alberto Vaquina.
Para o executivo de Maputo, Moçambique enfrenta desafios ligados à pobreza e infraestruturas do país para sustentar a economia, pelo que o país necessita de dinheiro para ultrapassar estes problemas.
“Esta questão do fundo soberano não está acabada. Temos ainda grandes problemas relacionados com a pobreza. Um dos desafios que temos neste momento é a infraestruturação do país. Precisamos de ter mais escolas, estradas e outras infraestruturas que possam sustentar a nossa geração e, a partir daí, preparar o futuro das próximas gerações, disse Alberto Vaquina, que admite porém uma posição contrária.
“Se o fundo soberano resolve o problema do país, não vejo nenhum problema, adotaremos a melhor solução para resolver os problemas de Moçambique”, afirmou.
Via|Lusa
terça-feira, novembro 27, 2012
EXISTE UMA RELAÇÃO ENTRE O PODER, O DINHEIRO, AS MULHERES E O EGIPTO?
O poder, o dinheiro e as mulheres continuam sendo as maiores tentações na vida de qualquer homem. Entre as trés macabras tentações, o poder constitui "O DESEJO MAIOR", a tentação das tentações, o pecado sem remédio.
Desde que o mundo é mundo os homens lutam para acumularem poderes, lutam para terem a possibilidade de condicionar a vida dos outros homens, lutam ocuparem posições nas quais têm o poder de comandar, de determinar o futuro dos outros homens. A tristeza é que normalmente vence os mais violentos, os mais frios, os mais ambiciosos, os mais individualistas, que no final das contas, pensa mais a si que a colectividade. A história da humanidade é entupida de factos desta natureza. Me apresentem um homem que afirma odiar o poder e vos apresentarei um "mentecapto/traidor" da pior espécie.
O Egipto de Mohamed Morsi, estrela maior dos Irmãos Mussulmanos, está vivendo os seus piores momentos. Tudo começou quando Morsi decidiu decidiu suspender a "frágil" democracia post "revolução" concentrando em suas mãos todos os poderes: executivo, legislativo e judicial. "Eu sou o salvador!", e a praça revoltou-se.
Haver vamos quem irá desistir desta luta pelo controlo "democrático" do poder no Egipto: a jovem "Opinião pública", apoiada por altos expoentes da diplomacia egípcia, entre eles Muhammad al-Barade'i, ou Mohamed Morsi em nome do Ocidente que só pensa na estabilidade de Israel.
The Crisis in Egypt | The New York Times
President Mohamed Morsi of Egypt appears to have made a course correction in his latest and most alarming power grab. During a meeting with the country’s top judges on Monday, he reportedly agreed to limit the sweeping authority he seized by unilateral decree last week. Instead of exempting all his decisions from judicial review, he would retain just the power to protect the constitutional assembly from being dissolved by the courts before it finishes its work early next year. >> http://tinyurl.com/d2g3xvs
terça-feira, janeiro 31, 2012
quarta-feira, janeiro 11, 2012
JES (José Eduardo dos Santos): Venceu a guerra ganhou a paz em Angola - General José Maria
Luanda - “Arma virumque cano…” Eu canto, pela métrica de Virgílio, As Armas, os 23 anos de guerra e o Homem que os soube enfrentar, conduzir e vencer no meio de tamanho sofrimento e sacrifício do seu Povo, no meio de tamanha destruição do País, no meio de tamanha delapidação das suas Riquezas.
Eu canto os nove anos de paz, premissa essencial e necessária para a Reconstrução Económica e Social de Angola. Eu canto o Homem que enfrentou as agressões militares do maior Exército a sul do Sahara e que venceu a subversão da UNITA, resoluta e obstinada na tomada do poder pela força das armas. Eu canto os 32 anos da guerra e da paz de José Eduardo dos Santos, pela Defesa da Independência Nacional, da Integridade Territorial e da Soberania Nacional.
Eu conto as operações conjuntas do Exército sul-africano e da UNITA. Eu conto a guerra subversiva da UNITA, apoiada por potências ocidentais e por países africanos. Eu canto os riscos que José Eduardo dos Santos correu para defender e proteger os angolanos. Eu conto contra quem o Presidente combateu, que complôs enfrentou.
Eu canto o Heróico Povo Angolano e o seu clarividente timoneiro, imperturbáveis perante a fragrância fatal do jasmim inebriante, possessivo, extasyante, vindo do Norte de África: Egipto, Síria, Líbia, Iémen e Tunísia – a antiga Cartago, hospedeira de Eneias, ouvido por Dido rainha, sobre a Tragédia de Tróia. Entre nós, alguns existem comandados de fora, que nos querem tamanha e semelhante desgraça. Não há espaço em Angola para os “cavalos de Tróia” da nova vaga, nem para qualquer tipo de “Primavera”, mesmo forjada pelas novas mudanças climáticas, já que temos tão somente duas estações do ano.
Primavera ou Inverno
Analistas e politólogos, alarmados com o rumo dos acontecimentos nesta região geopolítica conturbada, consideram que à “Primavera Árabe” começa a suceder-se o “Inverno Islâmico”. A invectiva para a interpretação desta realidade, que se vai desenhando no Mundo Árabe, vem bem escalpelizada na conceituada revista “Afrique Asie” deste mês (págs. 16 a 30), com o título “Primavera Árabe ou Inverno Islamista?”. Qual a sua essência, quem a promove, quem a executa, que objectivos persegue?:
“Após décadas de estabilidade e estagnação políticas, o mundo árabe é, desde o início deste ano, o teatro de agitações geopolíticas recorrentes. A Tunísia abriu esta série de mudanças com a queda inesperada do regime de Ben Ali. Seguiu-se, então, o Egipto, o Bahrein, a Líbia, o Iémen e a Síria. Em todas essas mudanças, ainda que não relacionadas entre sí, ressalta-se uma constante: o ressurgimento em força do islamismo político com a bênção do Ocidente.”
“É prematuro, até aqui, falar de ‘Primaver’", ou seja, de encontros históricos com a democracia. Em resposta, existe, em toda a parte, uma certeza: ninguém sabe o dia de amanhã. Os partidos islâmicos vão substituir os regimes autocráticos pró-ocidentais ou laicos? Quanto tempo levará a transição para a democracia?”
“O islão político que afirma ter a solução para todos os problemas saberá dar uma resposta diferente do ultraliberalismo às questões sociais do mundo árabe, como o analisa magistralmente, neste dossier, o economista Samir Amim? As monarquias do Golfo que se deixaram arrastar pela vaga da ‘primavera árabe’ e que financiaram o surgimento, em força, dos partidos islâmicos, agem por conta própria ou por conta das potências estrangeiras, como sugere o politólogo tunisino Mezri Haddad?”
“Além da Tunísia, onde a transição acontece laboriosamente, todas as outras alterações no Bahrein, no Iémen, no Egipto e na Síria em particular, podem conduzir a guerras civis já em gestação ou a poderes islâmicos sem horizontes democráticos.”
“À excepção das petromonarquias que estão em vassalagem desde o seu surgimento, todos os outros países árabes têm, agora, a sua soberania e integridade territorial ameaçadas. O que é vergonhoso é que a recolonização do mundo árabe está em marcha, sob pretexto da defesa dos direitos humanos e da democracia, enquanto os seus objectivos, ontem como hoje, são essencialmente económicos e vilmente mercantilistas.”
“O que é vergonhoso, é que os jovens, intelectualmente vulneráveis, cujo instinto patriótico foi alterado por causa de muitos anos de ditadura, foram doutrinados e manipulados para servir um propósito geopolítico sobre o qual não tinham a mínima ideia. O que é preocupante é que a Tunísia serviu de plataforma de lançamento deste míssil da ‘liberdade’ que abre a porta aos anos de servidão voluntária".
O iconoclasta Mezri Haddad
“Alguns dedicam-lhe um ódio feroz, enquanto outros têm-no em grande estima. O facto é que os escritos e as declarações de Mezri Haddad nunca nos deixam indiferentes. Apenas com cinquenta anos, ele já ostenta uma vida intelectual e política muito rica, não só pela escrita, como também pela acção. Doutor em filosofia política pela Universidade de Sorbonne, jornalista durante muito tempo e universitário em França, ele tornou-se embaixador da Tunísia na UNESCO, no final de 2009, cargo do qual decidiu demitir-se na noite de 13 de Janeiro de 2011, logo após o último discurso de Ben Ali, tendo sido o único responsável tunisino a ter tal gesto antes da saída de Ben Ali.”
“Em 2002, ele apresentou o seu pensamento político num livro analítico e polémico, publicado em França sob o título ‘Cartago não será destruída’, um livro considerado precursor e visionário (contra “delenda esse Cartago”, de Cícero = Cartago deveria ser destruída). No seu novo livro, Mezri Haddad fez uma autópsia impecável à ‘primavera árabe’, e com argumentos notáveis, ele refuta a espontaneidade da ‘revolução Jasmi’", cujo efeito dominó sobre o Egipto, Líbia, Iémen e Síria levanta algumas interrogações.
“Para o autor, esta é uma revolta social autêntica e legítima, que foi disfarçada de insurreição política. Ele acusa claramente a administração americana e ao que ele chama o ‘Estado-Televisão do Qatar’, de serem os principais instigadores. Sem mergulhar na teoria do complô, Mezri Haddad pensa que essa conspiração contra a Tunísia, em nome da democracia, é parte de um plano estratégico americano, estabelecido pelos neo-conservadores e retomado na íntegra por Obama, desde a sua chegada à Casa Branca, para servir um desiderato geopolítico muito maior. Ele acusa o presidente americano de ser ‘um falcão com asas de pomba’ e alinha no mesmo diapasão do seu prefaciador, o grande pensador egípcio Samir Amin.”
“Graças à brecha aberta por uma revolução, da qual não fizeram parte, os islamistas voltaram em força, numa altura em que a sua influência estava em declínio. Será isso um efeito secundário? Mezri Haddad afirma que a intenção dos estrategas americanos era completamente contrária, pois eles tudo fizeram para ‘subverter’ o processo revolucionário. Como provas, ele argumenta que o Tio Sam decidiu, há muito tempo, jogar a carta do islamismo ‘moderado’ não só na Tunísia mas em todo o mundo árabe e muçulmano.”
“Escrito num estilo vivo e cristalino, a face oculta da revolução tunisina é um livro sem contemplações. Nem para os Estados Unidos, nem para França, cujo humanismo universalista se evaporou a favor de um atlantismo suicidário. Nem para o ‘Qatrael’, esse cavalo de Tróia ao serviço do império para destruir todos os estados nacionalistas…”
Os falsos profetas
No momento que lhe pareceu oportuno, e calculando que o “efeito jasmim” tinha chegado a Angola, sem a mínima satisfação às autoridades Angolanas, surpreendendo todos, a rádio Voz da América, fazendo jus ao modus operandi da grande potência unipolar, fez a rentrée espectacular do antigo programa da Vorgan, arranjado e retocado para Angola, o fantástico “Angola Fala Só”, depois de abandonada, há 19 anos, a plataforma em que as duas operavam sobrepostas na Base Aérea Militar Americana desdobrada no Botswana.
Alguns videntes observaram, pela sua bola de cristal, que o “efeito Jasmim” ia resultar de forma irreversível na “Primavera Bantu”, cujo epicentro de irradiação era Angola para toda a África Central. Que fazer com os falsos profetas?
Entendemos a posição dos responsáveis do INACOM que dizem (debate informativo com o tema “Rádiodifusão - Que Futuro Perante a Actual Proposta de Lei” – Rádio Eclésia, 04.06.2011) que “as emissões que sejam feitas a partir de fora, de outros pontos que não estejam dentro do território angolano, não estão sob jurisdição do Estado Angolano, como tal as entidades angolanas não têm qualquer autoridade sobre elas” – Dr. Lucas Kilundo.
Ora, se o Presidente de Angola incluiu os Estados Unidos da América no elenco dos parceiros estratégicos de Angola, é linear e seria de bom tom comunicar ao Governo Angolano a abertura de um programa especial para Angola incrustado na Voz da América, como prova de uma cooperação não estritamente ligada ao “trade”, às relações comerciais.
Confusão e subversão
É preciso ir ao fundo do relacionamento entre Estados Soberanos, que governam os seus povos, donos do direito inalienável à informação e à livre expressão, mas ninguém tem o direito de as confundir e subverter. Na verdade, quem consegue parar e estancar um insulto no instante em que ele é proferido? Se tal foi pronunciado, tal efeito pretendido foi certamente atingido.
Nestas circunstâncias é descabido e mesmo desonesto dizer que se corta ou que não se permite que alguém ofenda alguém. Como assim, se o interveniente já falou só e os radiouvintes já escutaram? O sentido da audição é para ouvir, logo ninguém consegue impedir que alguém ouça se esse alguém não é surdo.
“Angola Fala Só”, entre outras, transformou-se na máquina incentivadora da mobilização apelativa da intervenção do Conselho de Segurança da ONU e da OTAN, comandada pelos Estados Unidos e pela França, para agir contra o Presidente de Angola como fizeram contra Gbagbo e contra Kadhafi. Todavia, quem se interessar, pode encontrar alguns pronunciamentos nesse sentido nas entrevistas de sexta-feira ou noutras completamente insultuosas e despudoradas contra o Presidente da República, proferidas pelo senhor Numa, no Lobito, no dia 06.06.2011, num ambiente que lhe é familiar, isto é, falando pela Voz da América. Estava em casa…
Que grande coincidência entre o início das manifestações verificadas no Largo da Independência a 2 de Abril de 2011 e o início do programa “Angola Fala Só” a 1 de Abril de 2011! Será possível estabelecer uma relação de causalidade entre a coincidência e a evidência?
A defesa da Bandeira
Eu canto o Homem, que, pela voz bem timbrada de Rui Mingas, tem defendido “a Bandeira que os Meninos do Huambo ganharam”, sem qualquer exclusão, para os Meninos do seu tempo e para todos os Meninos e para todos os Jovens de Angola, que devem conhecer o que ele fez por eles, durante 32 ANOS, devendo por isso seguir-lhe o exemplo:
– Estudante exemplar do Liceu Salvador Correia; Sensível à opressão colonial, envolveu-se na luta clandestina; Inconformado, com outros jovens irmanados nas mesmas convicções, deixou Angola para participar na Luta de Libertação Nacional, há 50 anos; Dirigente juvenil respeitado no seu e no amplo movimento socialista juvenil de então; Estudante universitário brilhante, licenciou-se em Engenharia de petróleos na antiga União Soviética, onde também se especializou em Telecomunicações Militares; Chefe do Centro de Comunicações do MPLA em Brazzaville; Ministro das Relações Exteriores; 2º Vice-Primeiro Ministro; Ministro do Plano; Tirocinado em Arte Operativa e Técnica de Estados-Maiores do Curso Superior de Oficiais.
Eu canto o Homem que tem sabido, com todo o seu ser, abnegação, sabedoria e firmeza, levar, às últimas consequências, o grito de Independência do Fundador da Nação, Dr. António Agostinho Neto, contra as forças estranhas dominadoras e opressoras determinadas a estabelecer uma nova ordem mundial que pretende a recolonização de África e do nosso portentoso País: “Nós Somos Nós Mesmos”…
Piedade para os vencidos
Eu canto para que os jovens entendam esta simples expressão algébrica: x = a + b + c = 32, 32 ANOS que são o fundamento do Rumo que o País tem. Eu canto para que os “Jovens” respeitem os Legítimos Superiores e se deixem educar pelo 4º Mandamento da Lei de Deus, que é imperativo: “honra teu pai e tua mãe e outros teus Legítimos Superiores”. Na verdade só não respeita os Legítimos Superiores quem não respeita os próprios pais!
Voltaire, de seu nome próprio François Marie Arouet, antigo discípulo de jesuítas, enciclopedista de renome e deísta convicto, não obstante ter escrito o epitáfio à Igreja Católica, recomendava: “se quiserdes uma Sociedade sã, colocai o Catecismo nas mãos das crianças.”
Eu canto o Homem que não se deixou guiar pelo conselho de De La Fontaine, para quem é rematada estultícia poupar a vida ao inimigo derrotado e capturado em combate (qual serpente enrijecida pelo frio, recolhida por transeunte bem agasalhado; quando aquecida, tenta matar o seu benfeitor…). Exemplo por si só expressivo e eloquente, está no comportamento do deputado da UNITA, Camalata Numa, e que Eneias contextualiza quando, nos seus companheiros vencidos pela tomada de Tróia, procurava incutir coragem para suportar a sua desgraça: “una salus victis, nullam sperare salutem = a única salvação para o vencido (é) não esperar nenhuma salvação”. Ele e outros correligionários capturados tiveram a salvação, isto é, estão vivos até hoje. Porquê? Imaginem se fosse o inverso!
A José Eduardo dos Santos são-lhe intrínsecas a misericórdia e a indulgência, pois já muito antes do “histórico desfecho do Lucusse”, a 22 de Fevereiro de 2002, comutou e indultou os condenados à pena capital, enquanto esta não foi abolida.
O nosso Plano Marshal
Eu canto o visionário que soube, no momento certo, olhar para a “Terra do Sol Nascente” e palmilhar o caminho de Marco Polo para conseguir os recursos financeiros necessários ao “Plano Marshal” para a reconstrução do País destruído pela guerra, desfazendo, desta forma, a inviabilização do desenvolvimento, engatilhada pela Conferência de Doadores, realizada na Bélgica, defensora de que Angola necessitava tão somente de Investidores! De resto, não é ele homónimo do previdente José, que preparou Faraó e o Egipto contra a grande carestia de sete anos de trigo, que se seguiu à grande abundância dos sete anos anteriores?!
Por ironia do destino, 16 anos depois dessa falhada e hipócrita conferência (Setembro de 1995) e 11 anos depois do Presidente José Eduardo dos Santos se ter voltado estrategicamente para a China, a Europa, mergulhada numa profunda crise económica sem precedentes, faz o mesmo trajecto para resolver os seus problemas financeiros.
De lá já não vêm as especiarias, nem a seda fina, nem as porcelanas delicadas, mas o dinheiro sonante e vivo para revitalizar a economia da Europa, enquanto que de África já não interessam os escravos que até podem morrer na travessia do Mediterrâneo ou de outros mares, mas um novo espaço vital conquistado, em cujas entranhas virgens jazem as maiores reservas minerais mundiais. Eis em marcha, sem a mínima dúvida, o plano da recolonização de África.
Coragem e firmeza
Eu canto a coragem, a firmeza, o sacrifício do Homem durante estes 32 ANOS, sentindo-me, evidentemente, obrigado a sublinhar dois altos momentos desta entrega total ao dever e à causa da defesa de Angola e dos Angolanos:
Quando, em 1983, lhe foi proposta a instauração do Estado de Sítio, para usar os plenos poderes especiais que lhe foram conferidos, não seguiu nem Sillas nem Júlio César; em vez de um Quartel-General com poderes absolutos, que lhe foi sugerido organizar para conduzir os destinos do País, congelando a Assembleia do Povo e o Governo, reorganizou, sim, o Conselho de Defesa e Segurança para realizar a manobra política, diplomática, militar e o desenvolvimento económico e social, desdobrado em Conselhos Militares Regionais, que, por sua vez, tinham sob sua jurisdição províncias e comandos de frente. De notar que tais Conselhos Militares Regionais não se estenderam à totalidade do território nacional. Na manobra político-diplomática assumiu especial relevância a condução do processo de negociações aturadas para o cumprimento da Resolução 435 do Conselho de Segurança das Nações Unidas sobre a independência da Namíbia.
Desta feita, livrou o País de ser visto como uma ameaça para os seus vizinhos, pois que colocar um Estado em Estado de Sítio podia engendrar o fenómeno do duplo efeito, podendo um deles atacar para não ser atacado e em consequência tirar proveito das debilidades e das vulnerabilidades decorrentes desta excepção momentânea.
Quando muitos pensaram que Angola tinha entrado na sua “Vigésima Quinta Hora”, pelos desaires temporários operacionais das FAA nas campanhas de pacificação do Huambo e Bié, com consequências vaticinadas para a insustentabilidade da capital, Luanda, vozes autorizadas do exterior aconselharam-no a deixar o País, ao que ele se opôs resolutamente, como de resto é apanágio de um destemido Capitão-General e das pessoas do seu bem fadado signo, sob o qual nasceram ele e o Primeiro Presidente da Nossa Terra. Do Presidente Neto, no seu último périplo pelo Kuando-Kubango, Huíla e Malange, recordo uma frase proferida numa reunião partidário-governamental em Menongue, em Agosto de 1979: “por detrás desta pessoa aparentemente calma e tranquila, existe uma personalidade forte e determinada…” (na sequência deste pronunciamento operou mudanças profundas na DISA, tendo deixado indicações claras e pertinentes de mudança para o Ministério da Defesa).
Intrigas e mentiras
Eu canto o Homem, o Presidente, o Estadista, o General, o Pacificador, o Defensor e Protector do Estado Angolano. Vou, então, contar:
- As operações militares sul-africanas: as operações militares sul-africanas conjuntas com as operações subversivas da UNITA (o factor Savimbi na estratégia do Apartheid);
- As operações especiais sul-africanas: contra os objectivos estratégicos e económicos de Angola; contra a integridade pessoal do Presidente José Eduardo dos Santos; ataques nucleares sul-africanos; ataque com a utilização de explosivos em telefone móvel (Improved Explosive Device - Dispositivo Explosivo Improvisado - DEIS);
- As operações subversivas da UNITA;
- Os riscos que José Eduardo dos Santos correu para defender e proteger os Angolanos; contra quem combateu, que complôs enfrentou;
- Balanço dos prejuízos humanos e materiais provocados pelas agressões a Angola;
- Nove a nos de paz, que resultados, que benefícios?
Tudo isto para que os jovens, hoje, conheçam qual foi o “preço da Liberdade” (Rui Mingas), e de tal modo consigam entender a equação enunciada, x = a + b + c = 32.
José Eduardo dos Santos passou 23 Anos a combater os Sul-Africanos, a UNITA e todos os seus incondicionais apoiantes. Gente há que persiste na sua má-fé de não querer ver nem reconhecer que nove anos é pouco, não é muito para resolver, pela simples vontade de mudar, os problemas provocados por 23 anos de guerra impiedosa e devastadora.
Porque não pedem responsabilidades também à África do Sul, à UNITA e às grandes potências que se envolveram na Guerra contra Angola? Hoje, que paradoxo, pedem nova intervenção dos Estados Unidos da América, de França, da Inglaterra contra esta nossa tão martirizada terra, a troco de quê? Da recolonização do nosso País?
Vejamos como é que o Presidente viu, já em Abril (15.04.2011, Reunião Extraordinária do Comité Central do MPLA), aquilo que hoje se vive nos países batidos pelos ventos da “Primavera Árabe”: “...porque se usa a mentira, a intriga, a desinformação e a manipulação para dividir as forças patrióticas e afastar o povo do Governo, preparando deste modo as condições para executarem os planos de colocar fantoches no poder, que obedeçam à vontade de potências estrangeiras que querem voltar a pilhar as nossas riquezas e fazer-nos voltar à miséria de que nos estamos a libertar com muito sacrifício”.
Silêncio comprometedor
Porque é que não apresentam a factura de indemnização contra os prejuízos humanos e materiais à UNITA, à África do Sul, aos Estados Unidos da América e a alguns países africanos que albergaram no seu território santuários da subversão? Leiam, para informação e compreensão, as seguintes obras:
- “Livro Branco das Agressões do Regime Racista da África do Sul contra a República Popular de Angola - 1975-1982”; “The CIA’s Greatest Hits”, de Mark Zepezauer “A Destruição de um País - A Política dos Estados Unidos para Angola desde 1945”, de George Wright;“Savimbi Vida e Morte”, de João Paulo Guerra.
Porque é que alguns paladinos do efeito jasmim no nosso País não exigiram mudanças imediatas ao Governo na altura em que a África do Sul ocupava grandes parcelas do Sul do País?
Porque é que não foram a Pretória para se manifestarem contra o ataque bárbaro a Cassinga, contra o ataque à Refinaria de Luanda, contra o ataque ao Malongo?
Porque é que não exigiram mudanças imediatas ao Governo, quando a UNITA destruiu o Caminho-de-Ferro de Benguela? quando ameaçou Luanda? Quando a UNITA destruiu a barragem das Mabubas? Quando a UNITA destruiu a conduta de água entre Kifangondo e Luanda? Quando a UNITA destruiu os postes de alta tensão entre Cambambe e Maria Teresa? Quando a UNITA atacou o comboio em Zenza do Itombe carbonizando civis inocentes e indefesos? Porque é que não foram a Washington manifestar-se diante da Casa Branca, quando Reagan autorizou a entrega de Stingers a Savimbi?
Porque é que não se manifestaram quando a UNITA colocou cargas explosivas na barragem de Capanda, ainda em construção, o que provocou atrasos significativos na sua conclusão? Quando a UNITA colocou cargas explosivas na barragem do Gove, que mexeram na sua estrutura comprometendo a regularização da albufeira, com consequências graves para as províncias da Huíla, Cunene e Namibe? Quando a UNITA destruiu a Base do Kuanda no Soyo? Com todas estas infra estruturas destruídas, como dar água e energia às populações a curto prazo e como sustentar o desenvolvimento industrial do País?
Porque é que a UNITA destruiu o valioso e precioso Centro de Investigação da Chianga, um dos mais bem equipados da África Austral? Porquê este crime da barbárie contra o conhecimento, contra um capital de investigação impossível de reconstituir? A única explicação para esta acção contra a razão, está no facto de que a UNITA iria, certamente, receber tudo do apartheid, que tinha gizado um plano de desenvolvimento para a Angola de Savimbi.
Finalmente, se tivesse que aprofundar as razões desta tendência mórbida para a destruição, não sei se me poderia valer de Freud e capacitar-me o suficiente para fazer a psicanálise da guerra levada a cabo pela UNITA, cuja divisa era: bater onde dói mais; destruir para construir melhor…
O medo do passado
Perante este quadro sinóptico de devastação que os 23 ANOS DE GUERRA provocaram, como esquecer o passado se a “Juventude” fala dum passado que não conhece? Quem tem medo do passado? O presente que vivem hoje, de que passado é que veio? Quem tem medo de ser condenado pelo passado? Quem tem medo da verdade que o passado tem? Porque é que não transmitem aos “Jovens” o que é que o Presidente José Eduardo dos Santos fez, o que é que ele suportou para o bem de Angola, dos Angolanos, da Namíbia, do Zimbabwe e África do Sul?
Ao contrário, transmitem-lhes uma imagem péssima e distorcida da sua pessoa? Quem está interessado em apagar o seu passado de luta, de guerra, de combates, o seu legado de sabedoria? A quem interessa apagar a história? Não apareceram, não os vimos em parte alguma para ajudarem o Presidente a aguentar e a transportar, como Atlas, todos estes anos, o pesado fardo de manter Angola íntegra, soberana e unida. Se ele tivesse tirado “as mãos e os pés” naquela altura, como querem hoje, alguns que nem sequer têm 30 anos de idade, Angola estava escaqueirada, tão frágil era como frágil é um vaso lindo de cristal precioso.
Se ele tivesse tirado “as mãos e os pés” naquela altura, Angola tinha sido esmagada pelo apartheid, pela UNITA e pelas grandes potências. É um crime apagar a memória de um Povo lutador, combativo e heróico, personificado em José Eduardo dos Santos.
A festa do Natal
Reflictamos, sem qualquer oportunismo, na Liturgia do Advento, que nos leva ao nascimento de Cristo, que o mundo cristão comemora com a festa do Natal. E se a memória Cristã fosse apagada, como é que a Humanidade celebraria o mistério da sua Redenção? Esta celebração tem mais de 2.000 anos de duração! O que são 32 ANOS na vida de uma Nação em construção? Porquê tanta azáfama, tanto corrupio e tanto sprint dos mentores das mudanças, para o exterior do País? O que levam para lá e o que trazem de lá? Estratégias, dinheiros, que certezas e garantias trazem de apoio aos seus planos? Ao que parece não conseguem justificar, lá fora, porque é que não conseguiram as mudanças imediatas desde Abril até agora!
Não basta vestir-se de “libertador” se não se libertarem primeiro a eles próprios; a libertação que apregoam tem de ser radical não no sentido que defendem, mas na profundidade deles próprios. Só é livre e pode libertar e libertar-se quem estuda, quem se valoriza para poder fazer a sua parte. Não é livre e não consegue libertar nada nem ninguém, à sua volta, se enveredar pela manifestação como profissão. Arriscam-se, por isso, a não terem personalidade própria e a agirem como caixas de ressonância de ideias e de vontades alheias. E se essas vontades alheias atingirem os seus objectivos e eles forem excluídos porque não têm capital para se inserirem num quadro de novas exigências, então vão revoltar-se contra os seus ideólogos. Até quando?
Com efeito, a estes também se aplicam as palavras do politólogo tunisino Mezri Haddad: “o que é vergonhoso, é que os jovens, intelectualmente vulneráveis, cujo instinto patriótico foi alterado por causa de muitos anos de ditadura, foram doutrinados e manipulados para servir um propósito geopolítico sobre o qual não tinham a mínima ideia. O que é preocupante, é que a Tunísia serviu como plataforma de lançamento deste míssil da ‘liberdade’ que abre a porta aos anos de servidão voluntária”.
Para que a nossa Juventude não caia nessa servidão voluntária e para não se desviar do seu papel autêntico, como força motriz da Sociedade Angolana, eu canto-lhe uma passagem do Redemption Song do inesquecível Bob Marley: “libertai-vos da mentalidade de servidão. Ninguém senão nós mesmos podemos tornar livre a nossa mentalidade”.
O tempo no País não começou a contar a partir dos primeiros dias de Abril de 2011. O tempo em Angola faz o seu percurso normal no seu meridiano referenciado ao meridiano de Greenwich; e é importante reter que desta vez a ordem dos factores não é arbitrária, porque será sempre nesta sequência 23 + 9, isto é, os 23 ANOS DE GUERRA estarão sempre antes dos 9 ANOS DE PAZ e de outros que lhe seguirão.
Porque não lêem o número 32 ao contrário? O que vão encontrar é, nem mais nem menos, o número 23, isto é, o tempo de guerra que o Presidente José Eduardo dos Santos travou contra os inimigos de Angola. Ora, se dizem que 32 É MUITO e o que dizer então dos 23 anos de guerra? “Jovens Angolanos” e os que estão em idade madura, interiorizai isto:
x - c = a + b = 23 ANOS DE GUERRA
23 ANOS DE GUERRA É MUITO
+9 ANOS DE PAZ É POUCO
32 ANOS DE GUERRA E DE PAZ DE JOSÉ EDUARDO DOS SANTOS AO SERVIÇO DE ANGOLA E DOS ANGOLANOS!
Eu canto a grande humildade que o Homem revelou, na comemoração do seu 68º aniversário, 28.08.2010, no jardim da Cidade Alta, contida nas seguintes palavras: “Ninguém sabe tudo. Ninguém pode tudo.”
General José Maria
African Cup of Nations: The Palancas Negras and officials are quartered at the Transcorp Hilton hotel
A 39-man contingent of the 2012 African Cup of Nations-bound Palancas Negras of Angola arrived in the Federal Capital, Abuja on Tuesday ahead of today’s international friendly game against the Super Eagles of Nigeria.
The delegation touched down at the Nnamdi Azikiwe International Airport at 4.33pm aboard a chartered aircraft, which will fly the team back to Luanda on Wednesday evening immediately after the match.
President of the Federacao Angolana de Futebol, Mr. Pedro de Morais Neto led the delegation, which also included vice presidents of the Federation, the Head Coach, four Assistant Coaches, team manager, journalists, psychologist, team doctor, physiotherapist, equipment manager and 22 players. The team trained on Tuesday night at the mainbowl of the National Stadium.
They were received on arrival by General Secretary of the Nigeria Football Federation, Barrister Musa Amadu and the Director of Technical, Dr. Emmanuel Ikpeme, as well as a battery of media representatives.
The Palancas Negras and officials are quartered at the Transcorp Hilton hotel, and will have a light walk-out on Wednesday morning. The match co-ordination meeting will also take place on Wednesday morning, at the NFF Secretariat.
FIFA referee Aguidissou Crespin from Republic of Benin will be at the centre, to be assisted by compatriots Padonou Prosper (1st Assistant) and Fassinou Alexis (2nd Assistant). Nigerian FIFA referee Bunmi Ogunkolade will be the fourth official.
The Nigeria Football Federation reiterated on Tuesday that gates will be thrown open for the match.
Amadu said: “We want Nigerians to come out en masse to the National Stadium, Abuja and bond together, and also support the Super Eagles in this match against Angola.
It is an important game for our team as it prepares for the African Cup of Nations qualifying match against Rwanda next month”.
The Super Eagles will fly out to Monrovia on Friday for another international friendly match, this time against the Lone Star of Liberia, which will take place at the Antoinette Tubman Stadium in Monrovia on Sunday, 15th January.
Coach Jose Carlos Vidigal expects a tough game from the Super Eagles as his wards set into the final stages of preparation for the three-week, 16-nation African Cup of Nations in Gabon and Equatorial Guinea, starting next week.
On his part, Nigeria’s Coach Stephen Keshi will have a good look at the boys he has been drilling at residential camping since last month, with a view to seeing which of them would be good enough to win shirts in the team to face Rwanda in a 2013 African Cup of Nations qualifier in Kigali next month.
VVG
quinta-feira, novembro 10, 2011
Carta Aberta dos Intelectuais Africanos: “Líbia, África e a Nova Ordem Mundial”
- Introdução de Theotonio dos Santos -
Lúcida nota de intelectuais africanos sobre a situação da Líbia Que bela lição de lucidez, que mostra como a África é uma das maiores reservas morais da humanidade. A preocupação dos intelectuais africanos por manter uma ordem jurídica mundial justa e por deter a ação neocolonialista apoiada por intelectuais que se pretendem de esquerda como uma revolução social contra o ditador sanguinário. Ai daqueles que pensam ignorar os povos africanos na construção de uma sociedade moderna, civilizada, justa e humana. Ai dos que pretendem assaltá-la para arrancar-lhe suas imensas riquezas à custa de uma sanguinária intervenção militar e mediática (quantas mentiras já se detectou nesta campanha militar diante das quais os meios de comunicação ocidental tiveram que desculpar-se. Como pode ser que um tribunal penal internacional, criado para deter as ações contra os direitos humanos, não somente condena a priori governantes africanos ou eslavos, como assumem como sua responsabilidade notícias falsas sobre a prisão do filho de Gadafi!).
Que vergonha que os nossos meios de comunicação se encham de pronunciamentos contrários ao respeito pelo Itamarati ao direito internacional e se coloquem a favor da volta ao poder na Líbia daqueles que impunham a bandeira da monarquia, apoiados militar, econômica e moralmente pelas 3 monarquias que circundam o Líbano. Que terrível ver nas televisões “ocidentais” (sem nenhum protesto!) estes “rebeldes” soltarem da prisão 600 prisioneiros ligados à Al Quaida, quando se pretende mover uma guerra internacional contra esta organização, na verdade, cada vez mais fortalecida em todo o mundo árabe e norteafricano a partir das odiosas ações imperialistas na região. Seria possível aceitar estas condutas vergonhosas numa ação contra um país “ocidental”? Está se assegurando a paz e a democracia com estes bombardeios sempre “equivocados” matando crianças e civis? Espero que haja um mínimo de cordura para ler com isenção este manifesto magnífico dos
intelectuais africanos.
Líbia, África e a Nova Ordem Mundial - Carta Aberta dos Intelectuais Africanos
Rosebank, Johannesburg, África do Sul, 11/8/2011
Nós abaixo-assinados somos cidadãos africanos comuns, todos imensamente condoídos e indignados, vendo que africanos como nós estão submetidos aos horrores da guerra, atacados por potências estrangeiras que claramente repudiaram a visão nobre e relevante inscrita na Carta das Nações Unidas [1].
A ação de escrever essa carta é inspirada por nosso desejo, não de escolher lados, mas de proteger a soberania da Líbia e o direito do povo líbio de escolher seus líderes e determinar o próprio destino.
A Líbia é país africano.
Dia 10 de março, o Conselho de Paz e Segurança da União Africana aprovou importante resolução (3) na qual se delineou o mapa do caminho para encaminhar a solução do conflito líbio, consistente com os deveres da União Africana nos termos do Capítulo VIII da Carta das Nações Unidas.
Quando o Conselho de Segurança da ONU aprovou sua Resolução n. 1.973, sabia da decisão da União Africana, anunciada sete dias antes.
Ao decidir ignorá-la, o Conselho de Segurança deliberadamente contribuiu para subverter a lei internacional, além de comprometer a legitimidade da ONU aos olhos dos povos africanos.
Desde então, por outros caminhos, tem ajudado a promover e aprofundar processo imensamente pernicioso de marginalizar a África entre as demais nações do mundo, também no que tenha a ver com solucionar os problemas do continente.
Indiferente ao que determina a Carta das Nações Unidas, o Conselho de Segurança da ONU declarou sua guerra privada contra a Líbia, dia 17/3/2011.
O Conselho de Segurança deixou-se manipular pelo que o International Crisis Group (ICG), em seu Relatório sobre a Líbia, de 6/6/2011[2], descreve como “matérias jornalísticas sensacionalistas segundo as quais o regime líbio estaria usando sua Força Aérea contra manifestantes”.
Assim (mal) informado, o CS-ONU aprovou a Resolução n. 1.973, que autorizava que se impusesse uma “zona aérea de exclusão” sobre a Líbia e que se tomassem “todas as medidas necessárias (...) para proteger civis e áreas populosas sob ameaça da Jamahiriya Líbia Árabe (...)”.
Assim, sobretudo, o Conselho de Segurança usou o conceito altamente controverso e sob o qual não há consenso entre os especialistas em direito internacional da “responsabilidade/direito de proteger”, chamado R2P, para justificar a intervenção militar de que trata o Capítulo VII, na Líbia.
Sob essa duvidosa cobertura, o Conselho de Segurança da ONU já cometeu longa lista de agressões que configuram a transformação desse Conselho em instrumento a serviço dos desejos dos estados militarmente mais poderosos dentre seus estados-membros. Até agora, o Conselho de Segurança não conseguiu apresentar nenhuma evidência de sua autorização para o uso da força nos termos do Capítulo VII da Carta da ONU tenha sido
resposta proporcional e adequada a uma situação que, na Líbia, e depois da intervenção militar, foi convertida em guerra civil.
Em seguida, o Conselho de Segurança ‘terceirizou’ ou ‘subcontratou’ a implementação de sua resolução para a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), admitindo que essa aliança militar agisse como uma “coalizão de vontades”.
O Conselho de Segurança não cuidou de implantar qualquer mecanismo ou processo para supervisionar os ‘serviços’ do exército ‘subcontratado’, de modo a garantir que as provisões de suas Resoluções fossem completamente e satisfatoriamente atendidas.
Tampouco fez qualquer esforço para monitorar e analisar as ações da OTAN ‘subcontratada’. O Conselho de Segurança permitiu que se estabelecesse um “Grupo de Contato” sem qualquer legitimidade e sem autorização legal formal – mais uma “coalizão de vontades” – que, de fato, desconstituiu a própria autoridade do Conselho de Segurança como autoridade competente para interferir no futuro da Líbia.
Confirmando essa desconstituição inadmissível, em reunião do dia 15/7/2011 em Istambul, esse “Grupo de Contato” “reafirmou que o Grupo de Contato continua como plataforma adequada e ponto focal de contato com o povo líbio, para coordenar a política internacional e ser um fórum de discussão do apoio humanitário e apoio pós-conflito”.
Dada a omissão do Conselho de Segurança, as duas “coalizões de vontades” – a OTAN e o “Grupo de Contato” –, de fato e para todos os efeitos, reescreveram a Resolução n. 1.973. Assim, as tais “coalizões de vontades” abertamente assaltaram um poder que legitimamente só o Conselho de Segurança poderia ter e puseram-se a trabalhar para derrubar o governo líbio, golpe que passou a ser designado como ‘mudança de regime’.
Para esse objetivo, passaram a usar da força e de todos os meios para derrubar o governo líbio – objetivo que absolutamente nada tem a ver com as decisões do Conselho de Segurança da ONU.
Mediante esses artifícios e sem qualquer atenção às Resoluções n. 1.970 e 1.973, aquelas “coalizões de vontades” atreveram-se a declarar ilegítimo o governo da Líbia e a proclamar um ‘conselho nacional de transição’ organizado em Benghazi como “legítima autoridade governante na Líbia”.
O Conselho de Segurança da ONU é hoje absolutamente incapaz de explicar como as decisões tomadas pela OTAN e pelo “Grupo de Contato” teriam algo a ver com a questão crucial de “facilitar o diálogo com vistas às reformas políticas necessárias para encontrar solução pacífica e sustentável” para o conflito na Líbia.
As ações de seus ‘subcontratados’ – a OTAN e o “Grupo de Contato” – converteram a ONU em parte beligerante no conflito líbio, desnaturando a Organização cujo papel só poderia ser de pacificador neutro e equidistante, igualmente, das duas facções armadas que disputam o poder na Líbia.
Não bastasse, o Conselho de Segurança optou por repudiar a lei internacional, ao deliberadamente ignorar o que determina o Capítulo VIII da Carta das Nações Unidas sobre o papel das instituições regionais legítimas.
A ‘guerra ao terror’ de George W. Bush contra o Iraque começou dia 20/3/2003. No dia seguinte, 21/3/2003, o jornal britânico The Guardian publicou um curto artigo assinado pelo conhecido neoconservador norte-americano Richard Perle, sob o título “Graças a Deus a ONU morreu. Seu fracasso abjeto só nos trouxe anarquia. O mundo precisa de ordem” [3]. Mas toda a arquitetura global do pós-Segunda Guerra Mundial, para manutenção da paz e da segurança internacionais centravam-se no respeito à Carta das Nações Unidas.
Hoje, o Conselho de Segurança da ONU deve saber que, pelo menos no que tenha a ver com a Líbia, atuou de modo que resultou em, e levou a, perder toda a autoridade moral para efetivamente presidir a discussão e o encaminhamento de processos criticamente importantes para que se alcance a paz global e se realize o objetivo da coexistência pacífica entre os povos do mundo.
Ao arrepio de tudo o que determina a Carta das Nações Unidas, o Conselho de Segurança autorizou e permitiu a anarquia que se abateu sobre o povo líbio.
Ao final disso tudo, o que se vê é que:
– muitos foram mortos ou aleijados;
– grande parte da infraestrutura do país foi destruída, o que empobreceu ainda mais o povo líbio;
– a animosidade e as fissuras que dividem o povo líbio foram aprofundadas;
– a possibilidade de chegar-se a um acordo negociado, inclusivo e estável tornou-se menor que nunca;
– a instabilidade aumentou em todos os países vizinhos da Líbia, sobretudo nos países do Sahel africano (Sudão, Chad, Niger, Mali e Mauritânia);
– a África herdará desafio muito maior e mais difícil no que tenha a ver com questões de paz e estabilidade e, portanto, afastar-se-á ainda mais da via do desenvolvimento sustentável;
– os que intervieram para perpetuar a violência e a guerra na Líbia fixarão os parâmetros sob os quais os líbios poderão decidir sobre o próprio destino e, assim, tornarão ainda mais limitado o exíguo espaço no qual os africanos lutam pelo seu direito a autodeterminação.
Como africanos, antevimos um futuro em que seríamos atores relevantes num sistema de relações internacionais justas, confiando que a ONU realmente zelaria pelo seu direito legítimo de atuar como “as fundações da nova ordem mundial”,
O Relatório do ICG citado acima diz:
“O que se pode prever para a Líbia, mas também para todo o norte da África, é cada vez mais terrível, a menos que se encontre meio pelo qual induzir os dois lados envolvidos no conflito armado na Líbia a negociar um acordo que permita transição pacífica para um estado pós-Gadaffi, pós-Jamahiriya, e que seja estado considerado legítimo pelo povo líbio. Uma saída política é, de longe, a melhor solução possível, ante a dificílima situação criada
pelo impasse militar.”
Quando Richard Perle escreveu em 2003 sobre o “fracasso abjeto da ONU”, reclamava contra a ONU ter-se recusado a curvar-se ante a ditadura da única superpotência mundial, os EUA.
A ONU assumiu aquela posição, porque estava consciente da, e inspirada por, sua obrigação de agir como verdadeira representante de todos os povos do mundo, nos termos de abertura da Carta das Nações Unidas: “Nós, os povos das nações unidas, resolvidos a preservar as gerações vindouras do flagelo das guerras...”
Contudo, e tragicamente, oito anos depois, em 2011, o Conselho de Segurança da ONU abandonou qualquer compromisso com essa determinação.
Açoitado pela humilhante experiência de 2003, quando os EUA demonstraram que o único poder é a violência, o Conselho de Segurança decidiu que mais fácil seria submeter-se à violência dos poderosos, que honrar o dever de respeitar o soberano desejo dos povos – também das nações africanas, é claro. Então divulgou a mensagem de que aceitava nada ser além de instrumento nas mãos dos senhores da violência mais brutal, os mais brutais no sistema das relações internacionais, e que a violência, portanto, passaria a comandar a ordenação dos negócios humanos.
Como africanos, temos de levantar-nos e reafirmar nosso direito e nosso dever de determinar nosso destino, na Líbia e em qualquer outro ponto de nosso continente. Exigimos que todos os governos, em todos os cantos do mundo, também na África, que almejem alcançar genuíno respeito dos governados, como nós, ajam imediatamente para reafirmar “a lei pela qual todas as nações possam viver dignamente”.
Exigimos que:
– tenha fim imediatamente a guerra de agressão da OTAN contra a Líbia;
– a União Africana seja apoiada para implementar seu plano para ajudar o povo líbio a alcançar a paz, a democracia, prosperidade para partilhada e a reconciliação, numa Líbia unida; e que
– o Conselho de Segurança aja imediatamente para cumprir suas responsabilidades, como definidas na Carta das Nações Unidas.
Os que desencadearam tempestade mortal de bombas sobre a Líbia não devem persistir na autoilusão de que o aparente silêncio dos milhões de africanos signifique qualquer tipo de aprovação à campanha de morte, destruição e dominação que aquela tempestade parece
assegurar.
Estamos confiantes. Reemergiremos vitoriosos, por mais que façam os semeadores de morte dos mais poderosos exércitos do mundo.
Responderemos na prática da vida e como africanos. Em todos os momentos e pelos meios necessários, agiremos resoluta e deliberadamente para defender o direito de os africanos da Líbia decidirem o próprio futuro e, por essa via, defenderemos o direito e o dever de todos
os africanos determinarmos nosso destino.
O Mapa do Caminho proposto pela União Africana [4] ainda é o melhor caminho para garantir a paz ao povo da Líbia.
[seguem-se 140 assinaturas de intelectuais, artistas, professores, religiosos, políticos e personalidades africanos]. [1] Em português, em
http://www.oas.org/dil/port/1945%20Carta%20das%20Na%C3%A7%C3%B5es%20Unidas.pdf
[2] Em http://www.crisisgroup.org/en/regions/middle-east-north-africa/northafrica/libya/107-popular-protest-in-north-africa-and-the-middle-east-v-making-sense-oflibya.aspx (em inglês).
[3] “Thank God for the death of the UN. Its abject failure gave us only anarchy. The world needs
order”, 21/3/2003, Richard Perle, The Guardian, UK, em
http://www.guardian.co.uk/politics/2003/mar/21/foreignpolicy.iraq1.
[4] “African Union proposes Libya roadmap to peace”, 10/4/2011,
http://www.socialistunity.com/?p=7976 (em inglês).
(11/8/2011, AllAfrica -- http://allafrica.com/stories/201108120282.html)
quinta-feira, novembro 03, 2011
A Guerra em Líbia e a política internacional Norte Americana
O artigo abaixo é de Michael Collon (*), que já publicou vários livros sobre as estatégias da guerra dos EUA e da mídia nos conflitos precedentes. Ele apresenta uma análise global do caso líbio, bastante abrangente, citando notícias publicadas na imprensa mundial e ainda fatos históricos que demonstram as verdadeiras intenções dos ataques à Líbia, bem como a repetição do modus operandi de guerra das superpotências. Os grifos são meus.
• 1ª PARTE: Perguntas que é preciso colocar em cada guerra.
27 vezes. Vinte e sete vezes os EUA bombardearam algum país, desde 1945. E cada vez tem-nos afirmado que estes atos de guerra eram “justos” e “humanitários”. Hoje, dizem-nos que esta guerra é diferente das precedentes. O mesmo que foi dito da anterior. E da anterior. E de cada vez. Não estamos já na hora de pôr “o preto no branco” das perguntas que é preciso colocar em cada guerra para não deixar-se manipular?
HÁ SEMPRE DINHEIRO PARA A GUERRA?
No país mais poderosos do globo, 45 milhões de pessoas vivem na extrema pobreza. Nos EUA, escolas e serviços públicos estão ruindo porque o Estado “não tem dinheiro”. Na Europa, também acontece o mesmo, “não há dinheiro” para as pensões ou para a promoção do emprego.
Porém, quando a cobiça dos banqueiros desencadeia a crise financeira, então, em só uns dias, aparecem bilhões para os salvar. Isto permitiu aos banqueiros dos EUA repartirem no ano passado US$ 140 bilhões de lucros e bônus a seus acionistas e especuladores.
Também para a guerra parece fácil encontrar bilhões. Ora bem, são nossos impostos que pagam estas armas e estas destruições. É razoável converter em fumaça centenas de milhares de euros em cada míssil ou esbanjar cinquenta mil euros por hora de um porta-aviões? Ou será porque a guerra é um bom negócio para alguns? Ao mesmo tempo, uma criança morre de fome a cada cinco segundos e o número de pobres não cessa de aumentar no nosso planeta, apesar de tantas promessas.
Qual a diferença entre um líbio, um bareinita e um palestino? Presidentes, ministros, generais, todos juram solenemente que seu objetivo é unicamente salvar os líbios. Mas, ao mesmo tempo, o sultão do Barein esmaga os manifestantes desarmados, graças aos dois mil soldados sauditas (americanos) enviados pelos EUA! Ao mesmo tempo, no Iêmen, as tropas do ditador Saleh, aliado dos EUA, matam 52 manifestantes com suas metralhadoras. Estes fatos ninguém os põe em dúvida, mas o ministro dos EUA para a guerra, Robert Gates, acabou de declarar: “Não acho que seja o meu papel intervir nos assuntos internos do Iêmen”.(1)
Por que estes dois pesos e duas medidas? Por que Saleh acolhe docilmente a 5ª Frota dos EUA e diz sim a todo o que Washington ordenar? Por que o regime bárbaro da Arábia Saudita é cúmplice das multinacionais petrolíferas? Será que existem “bons ditadores” e “maus ditadores”? Como os EUA e a França podem pretender ser “humanitários”? Quando Israel matou dois mil civis nos bombardeios sobre Gaza, eles declararam uma zona de exclusão aérea? Não. Decretaram alguma sanção? Nenhuma. Ainda pior, Solana, então responsável pelos Assuntos Exteriores da UE declarou em Jerusalém: “Israel é um membro da UE sem ser membro de suas instituições. Israel faz parte ativa de todos os programas de pesquisa e de tecnologia da Europa dos 27?. Acrescentando ainda: “Nenhum país fora do continente tem o mesmo tipo de relacionamentos que Israel com a União Européia”. Neste ponto, Solana tem razão: A Europa e seus fabricantes de armas colaboram estreitamente com Israel na fabricação de mísseis e outros armamentos que semeiam a morte em Gaza.
Recordemos que Israel, que expulsou 700 mil palestinos das suas aldeias, em 1948, se recusa a devolver-lhe seus direitos e continua cometendo inumeráveis crimes de guerra. Sob esta ocupação, 20% da população palestina atual está ou passou pelas prisões israelenses. Mulheres grávidas foram obrigadas a darem à luz atadas ao leito e reenviadas imediatamente às suas celas com os bebês. Esses crimes são cometidos com a cumplicidade dos EUA e da UE.
A vida de um palestino ou de um barenita vale menos do que a de um líbio? Há árabes “bons” e árabes “maus”?
PARA OS QUE AINDA ACREDITAM NA GUERRA HUMANITÁRIA…
Em um debate televisionado que tive com Louis Michel, ex-ministro belga dos Assuntos Exteriores e Comissário Europeu para a Cooperação e o Desenvolvimento, este me jurou, com a mão no peito, que esta guerra tinha como objetivo “pôr de acordo as consciências da Europa”. Era apoiado por Isabelle Durant, líder dos Verdes belgas e europeus. Dessa forma, os ecologistas (“peace and love”) viraram belicistas!
O problema é que a cada vez mais nos falam de guerra humanitária e que gente de esquerda como Durant se deixa enganar. Não fariam melhor em ler o que pensam os verdadeiros líderes dos EUA em vez de olharem e assistirem a TV? Escutem, por exemplo, a propósito dos bombardeios contra o Iraque, o célebre Alan Greenspan, durante muito tempo diretor da Reserva Federal dos EUA. Greenspan escreve em suas memórias: “Sinto-me triste quando vejo que é politicamente incorreto reconhecer o que todo mundo sabe: a guerra no Iraque foi exclusivamente pelo petróleo” (2). E acrescenta: “Os oficiais da Casa Branca responderam-me: ‘pois, efetivamente, infelizmente não podemos falar de petróleo’”. (3)
A propósito dos bombardeios sobre a Iugoslávia escutem John Norris, diretor de Comunicações de Strobe Talbot que, nesse então, era vice-ministro dos EUA dos Assuntos Exteriores encarregado para os Bálcãs. Norris escreve em suas memórias: “O que melhor explica a guerra da OTAN é que a Iugoslávia se resistia às grandes tendências de reformas políticas e econômicas (quer dizer: negava-se a abrir mão do socialismo), e esse não era nosso compromisso com os albaneses do Kosovo”. (4)
Escutem, a propósito dos bombardeios contra o Afeganistão, o que dizia o antigo ministro de Assuntos Exteriores, Henri Kissinger: “Há tendências, sustentadas pela China e pelo Japão, de criar uma zona de livre-câmbio na Ásia. Um bloco asiático hostil, que combine as nações mais povoadas do mundo com grandes recursos e alguns dos países industrializado s mais importantes, seria incompatível com o interesse nacional americano. Por estas razões, a América deve manter a sua presença na Ásia…” (5)
O que vinha a confirmar a estratégia avançada por Zbigniew Brzezinski, que foi responsável pela política exterior com Carter e é o inspirador de Obama: “A Eurásia (Europa+Ásia) é o tabuleiro sobre o qual se desenvolve o combate pela primazia global. A maneira como os EUA “manejam” a Eurásia é de uma importância crucial. O maior continente da superfície da terra é também seu eixo geopolítico. A potência que o controlar, controlará de fato duas das três grandes regiões mais desenvolvidas e mais produtivas: 75% da população mundial, a maior parte das riquezas físicas, sob a forma de empresas ou de jazidas de matérias-primas, 60% do total mundial”. (6)
Nada aprendeu a esquerda das falsidades humanitárias transmitidas pela mídia nas guerras precedentes?
Quando o próprio Obama falou, tampouco acreditaram nele? Neste mesmo 28 de março, Obama justificava assim a guerra da Líbia: “Conscientes dos riscos e das despesas da atividade militar, somos naturalmente reticentes a empregar a força para resolver os numerosos desafios do mundo. Mas quando os nossos interesses e valores estão em jogo, temos a responsabilidad e de agir. Vistos os custos e riscos da intervenção, temos que calcular, a cada vez, nossos interesses ante a necessidade de uma ação. A América tem um grande interesse estratégico em impedir que Kadafi derrote a oposição”.
Não está claro? Então alguns vão e dizem: “Sim, é verdade, os EUA não reagem se não virem nisso o seu interesse. Mas ao menos, já que não pode intervir em todos os sítios, salvará àquela gente” Falso. Vamos demonstrar que são unicamente seus interesses os que procura defender. Não os valores. Em primeiro lugar, cada guerra dos EUA produz mais vítimas do que a anterior (um milhão no Iraque, diretas ou indiretas). A intervenção na Líbia, prepara-se para produzir mais…
QUEM SE NEGA A NEGOCIAR?
Desde o momento em que colocarem uma dúvida sobre a oportunidade desta guerra contra a Líbia, imediatamente serão culpados: “então recusam-se a salvar os líbios do massacre? Assunto mal proposto. Suponhamos que todo o que se nos tem contado fosse verdade. Em primeiro lugar, pode-se parar um massacre com outro massacre? Já sabemos que nossos exércitos ao bombardearem vão matar muitos civis inocentes. Inclusive se, como a cada guerra, os generais nos prometem que vai ser “limpa”; já estamos habituados a essa propaganda.
Em segundo lugar, há um meio bem mais singelo e eficaz de salvar vidas. Todos os países da América latina propuseram enviar imediatamente uma mediação presidida por Lula. A Liga Árabe e a União Africana apoiavam esta gestão e Kadafi tinha-a aceitado (propondo ele também que fossem enviados observadores internacionais para verificar o cessar-fogo). Mas os insurgentes líbios e os ocidentais recusaram esta mediação.
Por quê? “Porque Kadafi não é confiável”, dizem. E os insurgentes e os seus protetores ocidentais são sempre confiáveis? A propósito dos EUA, convém recordar como se comportaram em todas as guerras anteriores, cada vez que um cessar-fogo era possível. Em 1991, quando Bush pai atacou o Iraque, porque este invadia o Kuweit, Saddam Hussein propôs se retirar e que Israel se retirasse também dos territórios ilegalmente ocupados na Palestina. Mas os EUA e os países europeus recusaram seis propostas de negociação. (7)
Em 1999, quando Clinton bombardeou a Jugoslávia, Milosevic aceitava as condições impostas em Rambouillet, mas os EUA e a OTAN acrescentaram uma, intencionadamen te inaceitável: a ocupação total da Sérvia.
Em 2001, quando Bush filho atacou o Afeganistão, os talibãs propunham a entrega de Bin Laden a um tribunal internacional se eram apresentadas provas do seu envolvimento, mas Bush rejeitou a negociação.
Em 2003, quando Bush filho atacou o Iraque, sob o pretexto das armas de destruição em massa, Saddam Hussein propôs o envio de inspetores, mas Bush o recusou porque ele sabia que os inspetores não iam encontrar nada. Isto está confirmado na divulgação de um memorando de uma reunião entre o governo britânico e os líderes dos serviços secretos britânicos, em julho de 2002: “os líderes britânicos esperavam que o ultimato fosse redigido em termos inaceitáveis, de modo que Saddam Hussein o recusasse diretamente. Mas não estavam certos de que isso iria funcionar.
Então tinham um plano B: que os aviões que patrulhavam a “zona de exclusão aérea” lançassem muitíssimas mais bombas à espera de uma reação que desse a desculpa para uma ampla campanha de bombardeios. (9)
Então, antes de afirmar que “nós” dizemos sempre a verdade e que “eles” sempre mentem, asssim como que “nós” procuramos sempre uma solução pacífica e “eles” não querem se comprometer, teria que ser mais prudentes… Mais cedo ou mais tarde, a gente saberá o que se passou com as negociações nos bastidores e constatará, mais uma vez, que foi manipulada. Mas será muito tarde e os mortos já não os ressuscitaremos.
A LÍBIA É IGUAL A TUNÍSIA OU O EGITO?
Em sua excelente entrevista publicada há alguns dias por Investi’Action, Mohamed Hassan, professor de doutrina islâmica e especialista do Oriente Médio, colocava a verdadeira questão: “Líbia: levante popular, guerra civil ou agressão militar?” À luz de recentes investigações é possível responder: as três coisas. Uma revolta espontânea localizada rapidamente recuperada e transformada em guerra civil (que já estava preparada), tudo servindo de pretexto para uma agressão militar. A qual, também, estava preparada. Nada em política cai do céu. Consigo explicar-me?
Na Tunísia e no Egito a revolta popular cresceu progressivament e em umas semanas, organizando-se pouco a pouco e unificando-se em reivindicações claras, o que permitiu derrotar os tiranos. Mas, quando analisamos a sucessão ultrarrápida dos acontecimentos em Benghazi, ficamos intrigados. Em 15 de fevereiro houve manifestações de parentes de presos políticos da revolta de 2006.
Manifestação duramente reprimida em função de estarem os manifestantes fortemente armados depois de haverem tomado à força, de forma coordenada, vários estoques de armamento militar. Dois dias mais tarde, outra manifestação, desta vez os manifestantes saem armados passando diretamente a uma escalada de ataque contra o regime de Kadafi, atirando em unidades do governo e forçando a população civil à aderir à revolta. Em dois dias, incrivelmente, uma revolta popular se converte em guerra civil. Totalmente espontânea?
Para saber isso, é preciso examinar o que se oculta abaixo do impreciso vocábulo “oposição líbia”. Em minha opinião, quatro componentes com interesses muito diferentes : 1º Uma oposição democrática. 2º Dirigentes de Kadafi “regressados” do oeste (ou traidores que venderam informações confidenciais a que tinham acesso). 3º Clãs líbios descontentes da partilha das riquezas. 4º Combatentes de tendência islãmica.
Afinal, quem compõe a “oposição líbia”?
Em toda esta rede de acontecimentos é importante sabermos do que estamos falando. E sobretudo, que facção é aceita pelas grandes potências… Isso sim, responde, precisamente sobre a que interesses servem.
1º Oposição democrática. É legítimo ter reivindicações ante o regime de Kadafi. Um povo tem o direito de querer substituir um regime por outro mais democrático. No entanto, estas reivindicações estão até hoje pouco organizadas e sem programa concreto. Temos, ainda, no estrangeiro, movimentos revolucionários líbios, igualmente dispersos, mas todos opostos à ingerência estrangeira. Por diversas razões que expomos mais adiante, não são estes elementos democráticos os que têm muito que dizer hoje, sob a bandeira dos EUA nem da França.
2º Dignatários “regressados”. Em Bengazhi, um “governo provisório” foi instaurado e está dirigido por Mustafá Abud Jalil. Este homem era, até 21 de fevereiro, ministro da Justiça de Kadafi. Dois meses antes, a Anistia Internacional tinha-o posto na lista dos responsáveis por violações de direitos humanos do norte da África. É este indivíduo o que, segundo as autoridades búlgaras, organizava as torturas de enfermeiras detidas durante longo tempo pelo regime. É neste que os aliados legitimam a oposição no momento.
Outro “homem forte” desta oposição é o general Abdul Faah Yunis, ex-ministro do Interior de Kadafi. Compreende-se porque Massimo Introvigne, representante da OSCE (Organização para a Segurança e a Cooperação na Europa) para a luta contra o racismo, a xenofobia e a discriminação, classifique estes personagens não como os ‘sinceros democratas’ dos discursos de Obama, “mas instrumentos do regime de Kadafi, que apenas aspiram tirar o coronel para tomar seu lugar”.
3º Clãs descontentes. Como sublinhava Mohamed Hassan, a estrutura da Líbia continua sendo tribal. Durante o período colonial, sob o regime do rei Idriss, os clãs do Leste dominavam e aproveitavam-se das riquezas petrolíferas. Após a revolução de 1969, Kadafi recebeu apoio das tribos do oeste e o Leste viu-se desfavorecido. Pode-se perguntar se as antigas potências coloniais não incitaram as tribos rebeldes para enfraquecer a unidade do país. Não seria a primeira vez. Hoje, França e os EUA apostam nos clãs do Leste para tomar o controle do país. Dividir para reinar, um velho dito clássico do colonialismo.
4° Elementos da Al-Qaeda. Documentos difundidos pelo Wikileaks advertem que o Leste da Líbia era, proporcionalmen te, o primeiro exportador no mundo de “combatentes mártires” no Iraque. Relatórios do Pentágono descrevem um cenário “alarmante” acerca dos rebeldes líbios de Bengazhi e Derna. Derna, uma cidade de escassos 80.000 habitantes, seria a fonte principal de mercenários da Al-Qaeda no Iraque. Da mesma forma, Vincent Cannistrar, antigo chefe da CIA na Líbia, assinala entre os rebeldes muitos “extremistas islâmicos” e que “as possibilidades [são] muito altas de que os indivíduos mais perigosos possam ser uma maligna influência, se Kadafi cair”.
Evidentemente tudo isto se escrevia quando Kadafi era ainda um “amigo”. Mas isto mostra a ausência total de princípios no chefe dos EUA e dos seus aliados. Quando Kadafi reprimiu a revolta islamista de Bengazhi, em 2006, fez isso com o apoio do Ocidente. Uma vez, somos contra os combatentes árabes, outra vez, utilizamo-los. Vamos apenas ver como.
Entre estas diversas “oposições” qual prevalecerá? Pode ser este também um objetivo da intervenção militar de Washington, Paris e Londres: tentar que “os bons” ganhem? Os bons do ponto de vista deles, é claro. Mais tarde, vai utilizar-se a “ameaça islâmica” como pretexto para se instalarem de forma permanente. Em qualquer caso uma coisa é segura: o cenário libio é diferente dos cenários tunisino ou egípcio. Ali era “um povo unido contra um tirano”. Aqui estamos em uma guerra civil, com um Kadafi que conta com o apoio da maior parte da população (um sinal claro disso é a intenção proposta desde o início, pelo governo líbio, de se organizar um plebiscito para consulta popular de avaliação sobre o regime que vigora no país, proposta essa que também foi ignorada pelos aliados e pela ONU). E nesta guerra civil o papel que jogaram os serviços secretos americanos e franceses já não é tão secreto…
Qual foi o papel dos serviços secretos?
Na realidade, o assunto líbio não começou em fevereiro em Benghazi, mas sim em Paris, em 21 de outubro de 2010. Segundo revelações do jornalista Franco Bechis (Libero, 24 de março), nesse dia, os serviços secretos franceses prepararam a revolta de Benghazi. Fizeram “voltar” (ou talvez já anteriormente) Nuri Mesmari, chefe do protocolo de Kadafi, praticamente seu braço direito. O único que entrava sem chamar na residência do líder líbio. Em uma viagem a Paris com toda sua família para uma cirurgia, Mesmari não se encontrou com nenhum médico, pelo conttrário, teve encontros com vários servidores públicos dos serviços secretos franceses e com próximos colaboradores de Sarkozy, segundo o boletim digital Magreb Confidential.
Em 16 de novembro, no hotel Concorde Lafayette, prepararia uma imponente delegação que devia viajar dois dias mais tarde a Benghazi. Oficialmente, tratava-se de responsáveis pelo ministério da Agricultura e de líderes das firmas France Export Céréales, France Agrimer, Louis Dreyfus, Glencore, Cargill e Conagra. Mas, segundo os serviços italianos, a delegação incluía também vários militares franceses camuflados como homens de negócios. Em Benghazi, encontraram-se com Abdallah Gehani, um coronel líbio ao que Mesmari lhes tinha apresentado como disposto a desertar.
Em meados de dezembro, Kadafi, desconfiado, enviou um emissário a Paris para tentar contactar Mesmari. Mas este foi preso na França. Outros líbios foram em visita a Paris no dia 23 de dezembro e foram eles que passaram a dirigir a revolta de Benghazi com as milícias do coronel Gehani. Ainda, Mesmari revelou inúmeros segredos da defesa líbia. De tudo isto resulta que a revolta no Leste não foi tão espontânea como nos foi dito. E tendo o apoio da França, a ingerência é clara e significa que pode ocorrer contra qualquer país, a depender do interesse. Mas isto não é tudo. Não foram só os franceses.
Quem dirige atualmente as operações militares do “Conselho Nacional Líbio” anti-Kadafi? Um homem que retornou dos EUA, em 14 de março, segundo a Al-Jazeera. Apresentado como uma das “estrelas” da insurreição líbia, pelo jornal britânico de direita, Dail Mail, Khalifa Hifter é um antigo coronel do exército líbio exilado nos EUA. Foi um dos principais comandantes da Líbia até a desastrosa expedição ao Chade, no final dos 80; emigrou imediatamente para os EUA e viveu os últimos vinte anos na Virgínia. Sem nenhuma fonte de rendimentos conhecida, mas a muito pouca distância dos escritórios da CIA (10). O mundo é um muito pequeno.
Como é que um militar líbio de alta patente pode entrar com toda a tranquilidade nos EUA, somente alguns anos após o atentado de Lockerbie, pelo qual a Líbia foi condenada, e consegue viver durante vinte anos, tranquilamente, ao lado da CIA? Obviamente teve que oferecer algo em troca.
Publicado em 2001, o livro Manipulations africaines (Manipulações africanas) de Pierre Péan, traça as conexões de Hifter com a CIA e a criação, com o apoio da mesma, da Frente Nacional de Libertação Líbia. A única façanha da tal frente foi a organização, em 2007, nos EUA, de um “congresso nacional” financiado pelo National Endowment for Democracy(11), tradicionalment e o mediador da CIA para manter lubrificadas as organizações a serviço dos EUA.
Em março deste ano, em data não comunicada, o presidente Obama assinou uma ordem secreta que autoriza a CIA a empreender operações na Líbia, para derrotar Kadafi. O The Wall Street Journal, que informa disso, em 31 de março, acrescenta: “Os responsáveis pela CIA reconhecem ter estado ativos na Líbia já há várias semanas, tal como outros serviços secretos ocidentais”.
Tudo isto já não é muito secreto, circula pela Internet faz algum tempo; o que é estranho é que a grande mídia não diga nem uma palavra. No entanto, conhecem-se muitos exemplos de “combatentes da liberdade” armados deste modo e financiados pela CIA. Por exemplo, nos anos 80, as milícias terroristas do ‘contra’, organizadas por Reagan para desestabilizare m a Nicarágua e derrotarem seu governo progressista. Nada se aprendeu com a História? Esta “Esquerda” européia que aplaude os bombardeios não utiliza a Internet?
É de se estranhar que os serviços secretos italianos “delatem” assim as façanhas dos seus colegas franceses e que estes “delatem” seus colegas americanos? Isso só é possível se acreditarmos em histórias bonitas sobre a amizade entre “aliados ocidentais”.
(Extraído do Investig’Action)
Notas:
1- Reuters, 22/3.
2- Sunday Times, 16 setembro 2007.
3- Washington Post, 17 setembro 2007.
4- Collision Course, Praeger, 2005, p.xiii.
5- Does America need a foreign policy, Simon and Schuster, 2001, p. 111.
6- Le Grand Echiquier, Paris 1997, p. 59-61
7- Michel Collon, Attention, médias Bruxelles, 1992, p. 92.
8- Michel Collon, Monopoly, – L’Otan á la conquête du monde, Bruxelles 2000, page 38.
9- Michael Smith, La véritable information des mémos de Downing Street, Los Angeles Times, 23 jun 2005.
10- McClatchy Newspapers (USA), 27 mars.
11- Eva Golinger, Code Chavez, CIA contra Venezuela, Liége, 2006.
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